Dor

Eu costumava me esquecer em você como uma gota no oceano.
Sem contornos, dançava diante da grandeza vertiginosa e flutuava no reverberar das suas ondas.
Era luz pura e maravilhosa. Puro espanto. Sincera adoração.

Não mais eu.

Era nós, esse amalgama estranho: a árvore frondosa da qual algum galho trêmulo e incerto havia de ser meu lado, meu eu esmorecido e esticado.
Que prazer infinito a nossa união. Planando sobre um mundo escuro e distorcido, agraciando os sedentos com baldes de esperança e amor eterno.

Sim, eu costumava me esquecer em você. E era o me perder meu grande prazer.

Mas, a queda me relembrou o que era chão.

Âncora da mortalidade é a dor. Ela reconstrói os seus limites.
Sou toda contornos—cada osso, cada articulação, cada estímulo tátil.
Os pés estão atados, os ombros pesam sob as correntes de bronze.
Não há mais melodia—apenas gemidos inexprimíveis.
Seu esplendor me alude, mas o chão é minha cela e meu novo abrigo.

Eu sou. Eu sou. Eu sou. Apenas dor.

Você ainda está por aí, não tenho dúvida. O farfalhar das folhas me assegura.
Grande árvore da vida e fonte inesgotável. Como devo sobreviver a esta distância?

Até quando?

Eu sou. Eu sou. Eu sou. Madeira seca.
Palha para a fogueira.

Mas, ouça no estalar dos meus lábios.
Verifique se em meu peito ainda há alguma paixão.
Porque é certo que não mais me esqueço em você, mas de você jamais me esqueço.

Será que há vida em um galho retorcido no chão?

Eu sou. Eu sou. Eu sou. Toda sua.

O clamor eterno

Embrulhei meu sonho num papel de seda
Depositei-o em um baú vedado
Escondi-o em uma gaveta
E tranquei-o com cuidado

Mas madrugava e a madeira tremia
E, de dentro da estante, a fera gemia: Leia mais →

O pretérito do futuro

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Eles dançam sem música, os pés mal se movem. Estão tão próximos e apertados nos abraços mútuos que mal podem respirar.

— Você lembra quando dançamos na escuridão? — ela sussurra, os olhos úmidos sondando seu rosto. Só a lua cheia clareia cinzenta a varanda. Os mosquitos zombem, as cigarras cantam. Uma brisa sopra sobre o suor que escorre de suas costas.

Ele ergue as sombrancelhas, os olhos indecifráveis na penumbra, mas não diz nada. Ela desliza as pontas dos dedos sobre o pescoço dele e prossegue:

— Lembra de como éramos jovens? — suspira, lançando o rosto para trás e contemplando o céu salpicado de estrelas. — Ainda não tínhamos filhos, nem tantas preocupações. Tão inexperientes e assustados! Apenas um casal apaixonado, cheio de sonhos e planos—
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A Feira do Livro de Frankfurt

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“A minha esperança é ano que vem estar lá ou como blogueira, ou como jornalista, ou como escritora ou como funcionária. [pausa] Ou como alienígena…” Mima Pumpkin no vídeo sobre a Feira do Livro de Frankfurt 2012

Os que acompanham o meu Facebook e o Twitter sabem que minha esperança expressada nesse vídeo não foi vã e este ano tive a oportunidade de estar na Feira do Livro de Frankfurt em todas as categorias descritas acima (uma coisa meio esquizofrênica, eu sei).

No dia 27 de setembro, ou dois dias depois que desisti de ser chamada para trabalhar na feira e acabei comprando meus ingressos, fui chamada! Recebi um e-mail e mais tarde um telefonema que me explicava o que eu teria que fazer lá. Basicamente eu seria um “anjo” para os escritores brasileiros convidados, levando-os aos locais de evento pontualmente, fazendo pequenas traduções ou, sei lá, servindo cafezinho, impedindo que se matem, alguma coisa assim. Ah, MAS  (sempre tem um mas, não é?)… o trabalho seria voluntário. Claro, haveria uma pequena ajuda de custos, transporte estaria incluso e eu poderia visitar a Feira de graça. Como eu poderia recusar? Leia mais →

O sapatinho de cristal

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Tudo com que sonhei, eu tenho. Tudo pelo que lutei.

Todos falam ao mesmo tempo. A banda soa desafinada na cacofonia da festa. Os servos passam, oferecem vinho, frutas frescas, petit gateau. A cera das velas já está pela metade derretida. A parentada gargalha, aplaude, se comove e dança semiembriagada. E o meu príncipe, de peito inflado, me estende a mão. Eu sou aquela que desfila, aquela que suspira, aquela que pisca os olhinhos maquiados e se deixa admirar. Eu sou aquela que coube no sapatinho de cristal.

E o que mais quero, neste momento, é morrer. Leia mais →

Outbreakband, música cristã de qualidade em alemão

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Em 2007 surgiu uma das primeiras bandas cristãs jovens da Alemanha. Ou, ao menos, uma das primeiras com qualidade equiparável aos padrões internacionais. Sob a influência de bandas conhecidas mundialmente como Jesus Culture, Hillsong United e outras de sucesso, os jovens estudantes da escola bíblica da igreja Glaubenszentrum de Bad Gandersheim resolveram se unir e tocar em uma conferência promovida pela escola. O resultado foi tão positivo que nasceu a Outbreakband, o grupo musical de maior influência nas igrejas cristãs livres da Alemanha hoje.

De início, as músicas eram em sua maioria versões traduzidas de músicas da língua inglesa. Hoje, as canções de maior sucesso nas igrejas da Alemanha são composições próprias do grupo, algumas até mesmo posteriormente traduzidas para o inglês e espalhadas pelo globo. A banda que conta com onze integrantes faz concertos vibrantes e apaixonantes, com o propósito de ”criar um espaço para que as pessoas realmente tenham uma experiência com Deus”. Leia mais →

Só se você quiser

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No princípio de tudo, Ele criou o tempo
E o tempo era imenso e invertido
Dobrado em si mesmo e em breu
Um Oroboro em pleno ato de auto-canibalismo
Foi só uma faísca de voz “haja…” e tudo explodiu
Numa tormenta violenta de ondas e cor
E a esse milagre Deus chamou de Luz
E a todo o resto, Escuridão
Pregou, num gesto hábil, uma única gota
De água e sequidão
Num coração de gravidade
Equilibrado fragilmente na antimatéria
Repousada gentilmente num mistério
Que flutuava no ermo Leia mais →

Rebeldia contra o eu-lírico

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Preste atenção. É a voz de fundo que narra sua vida. Preste atenção nela: o que lhe diz agora?

Sim, é verdade que romantiza seus dias.

É ela que numa tarde chuvosa insiste para que você se debruce melancolicamente sobre a mureta de pedra e espere. Tal qual uma bendita duma heroína. A vida não é linda? Miserável e trêmula como uma Brontë.

É a voz que descreve aquela impossível borboleta rosa-choque que dança por entre as gotas de chuva e a leva às lágrimas.

E ela que chama a atenção para a mulher dos cabelos com a mesma cor da borboleta e cujas pernas cobertas de tatuagem disparam numa bicicleta nesse instante.

E é nesse momento que a vozinha pergunta:

— Essa é a vida real? Leia mais →

A benção e a sina da palavra escrita

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Escrever para quê? Frequentemente preciso encontrar respostas para essa pergunta. Por que sinto a necessidade de escrever?

É uma questão muito difícil de responder e, mesmo assim, é uma indagação inevitável que todo escritor se faz. Porque possivelmente não há nenhuma outra atividade que seja, ao mesmo tempo, tão prazerosa e tão torturante quanto essa. Leia mais →

Comentários sobre o livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

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A história é sobre Guy Montag, 30 anos, e se passa no futuro, num mundo dominado pela tecnologia, onde as relações entre as pessoas se deterioraram num nível assustador. A normalidade dita que não se olhe nos olhos uns dos outros e a arte da conversação não é praticada.

Com o crescimento da população, a produção cultural foi se tornando cada vez mais imediatista. Livros foram condensados e resumidos em algumas páginas, para que, sem muita “perda de tempo”, uma pessoa pudesse ler todos os clássicos que seu vizinho gabava-se de ter lido. Filmes também sofriam mais e mais edições, assim como artigos de jornais e revistas. Ninguém mais tinha paciência pra dedicar muito tempo a essas coisas. Leia mais →

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