10 de setembro de 2012

100 sonhos de solidão

Alternava flashes da realidade da minha cama e dos cobertores entrelaçados com baforadas ruidosas de estupor e ilusão. Estávamos em um veleiro. Meus cabelos chicoteando meu pescoço e o rosto dele, ele com a barba arranhando meu ombro. Um raio de luz cegando um dos seus olhos, o resto é sombra minha. Eu o vi ali nessa meio-sombra, meio cor, embora ele estivesse por trás de mim e essa perspectiva fosse tecnicamente impossível. Estávamos os dois ali embaixo, porque agora nos via de cima, envolvidos naquela atmosfera rosa alheia aos outros que novos amantes se encobrem.

“Conta um segredo”, exijo dele. “Algo que ninguém sabe.”

A meia cor se aquece, um trem violento borra a cena em trilhos invisíveis e fora de lugar, o sacolejar suave do mar locomove a luz e você é todo sombra.

“Eu te amo”, sussurra. “Sempre te amei, sempre vou te amar”, com rouquidão e secura nas palavras.

Um brilho de lágrimas no balançar da luz. Os cobertores me pesam no corpo. Um trem prossegue seu trajeto, sempre constante, sempre rangendo, rugindo arrepios. “Eu te amo” continua num eco ondulado de alguma saudade esquecida. “Eu te amo”… “eu te amo”… cada vez mais indistinto, cada vez mais desejado.

“Eu também”, tento falar, mas a voz não sai. As sombras não se vão mais. O foco se desfaz devagarinho e o mundo pulsa porque preciso tocá-lo ao menos uma vez, uma única vez preciso alcançar o seu rosto.

Solto a beirada do barco e me torno para ele. Meus dedos se esticam para tocar o seu rosto e ao mesmo tempo para alcançá-lo no outro lado da cama. Mas, não sinto nada além do vazio. Apalpo o lençol frio antes de soluçar solidão.

“Eu também”, sussurro tremendo, semiacordada, semidormindo.

Meu choro é  pela alegria completa se esvaindo como o nevoar em olhos recém-despertos.

Quem pode dizer que não foi real por não ter existido? Alguém que nunca sonhou?

Foi a matéria dos sonhos, o tecido conjuntivo entre a minguante e o nascente, o que amei. Amei, amei, acreditem. Amei mais do que já amei alguém.

Ao menos, agora eu sei do que o meu amor é feito. Do material que os sonhos são tecidos.

“Você sabe aquele lugar entre dormindo e desperto? O lugar que você ainda lembra de sonhar? É este o lugar onde eu sempre vou te amar, Peter Pan. É onde eu estarei esperando.” ~ Tinkerbell, Hook – O Retorno do Capitão Gancho


[blue_box]Sobre 100 sonhos de solidão


Este post nasceu da vontade de registrar de alguma forma momentos que foram recorrentes na minha vida. Um deles era a sensação de perda e irrealidade que sucedia a sonhos que pareciam bom demais para ser verdade e, de fato, eram.[/blue_box]

10 de setembro de 2012 sonhos

  • Entendi. De repente é baseado num livro sim e eu nem sei! :D

  • Eu sou do tipo que tem e lembra de pelo menos uns 6 sonhos por noite, o que é crazy. Na maior parte deles estou bem lúcida e ciente de que estou sonhando. É um pouco cansativo e aterrorizante, ao mesmo tempo que divertido. Sinto que vivo duas vidas diferentes: uma de dia e outra dormindo.
    P.s. o livro é bem melhor que filme, série ou o que for mesmo.P.s. acho que sou um bom misto das duas. Sou Marianne no sentido de que, como ela, muitas vezes busco a solidão e alimento a tristeza quando acho que preciso ficar triste. Sou Elinor no sentido de que consigo me controlar e disfarçar bem por amor à discrição, reserva e consideração pelo próximo.

  • Mima, você é uma privilegiada. E não estou falando só do dom da escrita, mas da felicidade de poder amar seus sonhos.
    Eu não tenho a menor criatividade para sonhar. Aliás, eu prefiro um sono tranquilo…
    Mas diga: você já acordou com uma ideia muito boa depois de um desses sonhos e teve vontade de escever?
    Beijinhos e até mais!
    P.S.: Ah, você leu Razão e sentimento! Amo demais! E quanto a série, acho maravilhosa. O filme é muito bom, mas pra mim não tem comparação.
    P.S.2: Então: você é mais Marianne ou Elinor?

  • Rsrs, eu pensei que o filme era baseado num livro. Já assisti.

  • Amo Lifehouse, mas não conheço essa música. Vou dar uma olhada! (ou melhor, uma ouvida). (P.s. Hook é um filme infantil do Steven Spielberg :))

  • Me fez lembrar da música do Lifehouse”Somewhere In Between” a letra diz sobre estar entre o que é real ou só mais um sonho.Ótimo texto, eu gosto muito do fato de deixar algo subentendido nas coisas. Eu nunca li o “Hook” :(

  • É isso aí, Kesley :D

  • É essa a intenção ^^ Beijos!

  • Logo, logo! :)

  • Caramba mima, assim vc medeixa doida, cada post melhor qque o outro, esse entao me fez querer ler maaaais quero o livro,livro,livro queremos livro!!!!:*

  • Wania Braganca

    Como sempre seus textos me levam junto, a lugares imaginários quase real, as vezes me fazem rir ou chorar ou simplesmente trazem sentimentos gostosos de tranquilidade e expectativa do que vem a seguir, como esse fez ao meu coração. Bom demais ler seus textos minha escritora predileta.  Weiter! Bjos

  • Kesley Siqueira

    Que lindo Mima. Suas palavras sempre são doceis e encantadoras, além de trazer uma sensação de aconchego na alma. Conseguiu descrever meus sonhos e a solidão que as vezes se faz presente, mesmo sabendo dos braços Amorosos de Deus nos sinalizando que não estamos sós. 
    Através do texto lembrou-me que sonhar é preciso e crer no que ainda não se vê também!
    Um beijo