20 de junho de 2013

A Casa dos Espelhos (ou “O porquê de eu te amar”)

Ela não entendia como eu era capaz de amá-la.

Tentei contar a verdade, mas não consegui.

Às vezes, parece que existe uma distância quase impossível entre os sentimentos mais profundos e os verbetes do dicionário. Aí só nos restam gemidos inexprimíveis.

Ou histórias.

E essa é a história de porquê a amo:

Era uma vez, uma casa de espelhos, dessas de parques de diversões antigos, só que essa era muito esquisita.

Quando por lá estive, para todo lado que olhava, não importava a direção, era só a mim mesma que via, mas, ao mesmo tempo, de certa forma, não exatamente eu. Porque ali, seguindo os caprichos arbitrários da curvatura do vidro, estava eu um tanto mais alta, ou muito mais baixa, ou mais gorda, ou mais magra, ou curva, ou deformada. A diferença é que, nessa casa específica, havia muito além do que essas variações habituais.

Porque ali me vi também mais velha, ou muito jovem, menos querida, ou desprezada, mais instruída, mais atrevida, menos sincera, mais machucada, muito mais bonita, ou muito marcada, ou desiludida ou desamparada.

Era eu com escolhas diferentes, sob os caprichos de tantas oportunidades tomadas ou nunca recebidas, afetos e efeitos externos, versões tão variadas do que poderia ser ou ter sido; rostos, por vezes, tão distorcidos, que até mesmo desejava não ser capaz de me reconhecer neles. “Não, essa não sou eu…” “Jamais seria assim…” “Que tipo de ser humano é desse jeito?”

Podia tentar desviar o olhar com uma careta, girar os olhos ou zombar. Mas, não adiantaria. Era eu ali do outro lado. Eu pude me enxergar num retrato aterrador de miséria e num outro de quem se entregou para as pessoas erradas e naquele outro ainda de alguém que nunca foi amada e naquele de alguém totalmente dominada pelo vício. Olhei nos olhos de uma eu que foi abandonada e abusada de todas as formas possíveis. Tudo que pude fazer, com lágrimas nos olhos, foi amá-la de todo coração. Porque podia ser eu no lado de lá. Do outro lado, onde tudo é invertido—a direita é esquerda e o certo é errado. E se a versão que vivo não estivesse comigo?

Eu disse a ela, acariciando o contorno de suas bochechas:

— Você é linda, minha princesa.

Ela olhou para seu próprio rosto exageradamente alongado, seu tronco distorcido num caracol e chorou.

— Lute, meu amor. — gritei para ela. — Estenda seus braços para cá, caminhe em frente, venha para esse lado do espelho.

Ela balançou a cabeça, esfregou os olhos e hesitou. Seus dedos se esticaram e se apertaram num punho firme enquanto ela cogitava a possibilidade de criar para si mesma uma nova realidade. Mas, por fim, sentou-se no chão resoluta e gritou:

— É fácil para você falar. — Com uma ênfase desdenhosa no você. — Nasceu aí, nem precisou se esforçar para se tornar outra. Olha para mim, olha como eu sou.

E o que eu deveria responder? Sinto muito pelo acaso? Sinto muito que os dados rolaram e você acabou no espelho errado?
 
É duro, mas, não consigo deixar de pensar que quando a tragédia é antiga e irremediável, que ao menos deixemos cacos no chão! Tem que ter luta, pontapés violentos na auto-imagem, que se quebre o destino pré-determinado e que sejam ignorados os possíveis sete anos de azar. É necessário espancar os próprios conceitos, duvidar dos sentidos e sempre ir além do próprio reflexo. É só estilhaçar essa fina camada de ilusão que nos separa. Você, minha querida, pode ser tão melhor do que isso.

Mas, ao invés disso, ela se sentou num amontoado distorcido do que se tornou, fadada à receita de sonhos despedaçados que lhe foi prescrita. Eu sei que é muito difícil. Mas, quando nada mais sobra, que outra opção há, além de lutar?

Foi aí que, enquanto observava entristecida a apatia e a desesperança da minha versão que não acredita em outras possibilidades, me sobreveio um pensamento magnífico e assustador:

E se essa versão de mim, que sou, também está aprisionada dentro de um espelho distorcido? E se, entre tantos milhares de reflexos, existem versões de mim tão melhores do que eu poderia ser aqui deste lado? Será que também eu, nascida nas circunstâncias que nasci, poderia alcançar uma outra dimensão?

As probabilidades estatísticas me disseram que sim.

Então, agora sei que há em algum lugar, também para mim, um espelho a ser quebrado, um limite que não precisa ser respeitado, uma distorção que só existe na minha visão e, sempre, sempre, a possibilidade de deixar milhares de cacos no chão.

Sempre há luta.

E, sempre, possibilidades.

É por isso que eu a amo. E é por isso que você é linda. Não importa de que lado esteja.