29 de agosto de 2012

A difícil espera

8 Minuten. Oito dolorosos minutos é o mau agouro do painel eletrônico na estação. Oito terríveis minutos, os quais passarei, cada minuto, tremendo, congelando, sofrendo e sonhando… a seu respeito. Oito minutos para imaginar sob a luz amarelada deste poste narniano o que somos e o que poderíamos ser. Oito minutos, com a pirâmide por testemunha, remexendo-me desconcertada.

Desvio por um instante o olhar do número maldito e ouso torná-lo para você. Seus olhos estão intensamente voltados para o mesmo lugar que eu observava antes, como se analisando profundamente o que significam esses oito minutos restantes. O anúncio no visor não está claro o suficiente? Olhe para mim.

Mr. Rochester. Se eu estivesse na Inglaterra, certamente sucumbiria ao charme do clima impiedoso. Mas, aqui estamos na Alemanha. Aqui somos racionais. Aqui sinto apenas um leve enjôo e ruborizar ao constatar que estou pensando no que estou pensando. Imagine se você soubesse.

Seus olhos estão agora perdidos no nada, meditativos. Sete minutos. O que você está fazendo aqui? Eu seria capaz de ler a verdade em qualquer outro rapaz. Que tipo de homem se ofereceria para me acompanhar na espera pelo trem numa temperatura tão inclemente? Ouso dizer que um João ou um Joaquim teriam muitas intenções ocultas. Seus olhos sorridentes agora estariam voltados para os meus, cheios de lisonjas e gozação. Alguma piadinha a respeito do meu nariz estar vermelho, uma ajeitada jeitosa de uma mecha de cabelo escapada do gorro de lã azul, o desafio de provar se meus lábios estão frios e uma risada para demonstrar que, caso não esteja interessada, é tudo apenas brincadeira. Sim, um João ou um Joaquim tomariam um passo. Mesmo não tão ousado, ofereceriam, ao menos, um abraço? Mas, o que mais me impressionou em você e, agora, o que mais me tortura é essa qualidade de personagem de livro clássico: sério, grave e educado ao extremo. E foi só sua educação que nos trouxe aqui, não é? Vida cruel. Quando finalmente encontro o homem que sonho, ele é, talvez, simplesmente bom demais para mim.

Suspiro. “Seis minutos”, arrisco falar, sentindo o rosto ruborizar novamente. Você olha para mim, como se tivesse esquecido que estamos ali, mas ao remexer seus pés e afundar as mãos mais fundo no bolso, percebo que você está sofrendo tanto quanto eu — só que provavelmente não pelo mesmo motivo. “Muito frio?”, continuo. Você demora para responder um pouquinho, escolhendo as palavras com cuidado. “A Alemanha no verão não é tão ruim, você vai ver. É tudo tão…”, você procura a palavra certa, “…diferente”. Desafio meus lábios congelados a se esticarem num sorriso. “Diferente, como?”, pergunto num tom brincalhão. “O que é tão diferente no verão? As árvores são de cristal, as ruas de ouro?” Você sorri também, parece que meio que contra sua vontade. “Você vai ver”, é tudo que diz, antes de retornar ao mistério do seu silêncio.

Quem dera fosse verão. Quem dera fôssemos um casal apaixonado, de braços dados, compartilhando gracinhas que só nós entendemos e trocando beijos leves de afeição. Ao invés de contarmos os minutos, os ignoraríamos. Como lamentaríamos o ranger arrepiante do trilho anunciando a chegada do trem! “Mas, já? Como? Faltavam 8 minutos!” “Sim, 8 minutos atrás. Como passaram rápido!” E mais um beijo de despedida, antes da partida. Não, mas o que estou dizendo? Você subiria comigo, é claro. A porta automática se fecharia atrás de nós, carimbaríamos os nossos tickets na maquininha e, depois do bip, sentaríamos lado a lado em direção ao nosso lar. Nem observaríamos a paisagem correndo na janela. Eu encostaria a cabeça no seu ombro e poderia, quem sabe, finalmente ter a chance de estudar que cor têm os seus olhos.

“Que cor têm os seus olhos?”, pergunto impulsivamente e, ante sua surpresa, logo me arrependo. Gaguejo qualquer desculpa de as fotos no Facebook serem indistintas e essa pergunta ser uma pergunta geral, que todas as pessoas fazem para jogar conversa fora. “Verdes, acho”, você diz. Correto, mas incompleto. Agora que os vejo mais de perto sei que são verdes salpicados de pontinhos dourados, como folhas de árvores em transformação entre o fim do verão e o início do outono — a melhor época do ano, na minha opinião. “Ah, verdes”, eu respondo. “Legal…” Começo a dar pulinhos sem sair do lugar para chacoalhar para fora o gelo. Você me olha divertido, como se eu fosse louca e, por qualquer motivo, gosto disso. Melhor que você já saiba a verdade desde agora. Cinco minutos. Olho para trás e vejo, iluminado por duas tochas de fogo, a placa de um restaurante espanhol chamado Besitos. Sugestivo. Eu aqui apenas sonhando com um abraço, o que dizer, então, de beijos? Mordo os lábios e percebo que já não os sinto mais. Como é ser beijada nos lábios? Você poderia me mostrar, se simplesmente chegasse mais perto. Ou eu poderia me aproximar de você agora. Poderia ficar na pontinha dos pés e simplesmente experimentar. Tanto tempo de espera para acabar assim. . . Um beijo roubado de um amigo recente, com lábios dormentes e incerta de futuro. Ao menos encerraria essa aura assustadora de Virgem Maria que parece me envolver sempre que descobrem a respeito da minha ‘inexperiência’. Sim, eu poderia acabar com tudo. Você saberia das minhas intenções e eu me encheria de um orgulho pérfido, por saber que fiz o que ninguém achou que eu ousaria. Olho para os seus lábios e me divirto por um instante com o pensamento. Você e eu seríamos perfeitos, aqui no frio, cumprindo ao chamado natural de aquecermo-nos mutuamente. Sorrio e imagino. Quatro minutos. Então meu coração dói como costuma após alguma ideia muito errada dominá-lo. Errada, por quê? É o que todo mundo faria. E essa lógica de esperar pelo marido é meio maluca — afinal, quem diz que você não será meu marido?

Adoro seu silêncio, cheio de possíveis sentidos. Adoro seus olhos salpicados de dourado, sua barba de dois dias e seu porte cool casual, com as mãos nos bolsos. Adoro que, nas raras ocasiões que você se concentra em mim, seu olhar me diz que sou o centro do mundo. Mas, tudo isso é agora só combustível para melancolia. Esse vento correndo congelante entre nós me lembra o que essa distância denuncia — você não é meu e eu não sou sua, ainda não, talvez nunca. E, por mais que eu não queira admitir agora, em algum lugar do tempo e do espaço, existe um marido que eu amo mais do que tudo me esperando, talvez, em alguma estação de trem durante um verão ou inverno futuro e ele adorará ouvir falar sobre beijos reservados para ele e sobre um coração que se recusou a ceder aos devaneios de uma noite fria. Quão deliciosos serão os abraços desejados e negados por tanto tempo. Quão fantástico será aquele primeiro beijo de lábios que pertencerão a mim eternamente.

Três minutos. Olho para você e suspiro um vapor gélido. Minha maior declaração de afeição não será um beijo, mas sim o silêncio. Será que isso significará perder você? Será que algum dia irei me arrepender?

Dois minutos. Perdida entre tantos pensamentos contraditórios e confusos, olho nos seus olhos mais uma vez e, de repente, rio. É óbvio, você é só um amigo e o que sentimos não é amor, é apenas frio.

Um minuto. Meu trem chega adiantado e eu dou na sua bochecha um beijo rápido que não contém nenhuma promessa, apenas gratidão amiga pela longa espera. Oito minutos, no final das contas, não é nada. Difícil que seja, por valer a pena, eu esperaria pelo amor uma vida inteira.


Sobre A difícil espera

Às vezes, eu e meu marido conversamos sobre o que estávamos pensando em um dia ou outro antes de nos tornarmos amigos e companheiros para a vida toda. Nós retornamos muitos vezes à pirâmide depois de casados e sempre lembramos de situações como a descrita acima. Rimos bastante ao finalmente compreendermos o que aquele olhar, aquela frase fora de contexto ou aquele ruborizar repentino significaram num determinado momento. Rimos também porque hoje colhemos a recompensa e compensamos pela longa, dolorosa e doce espera. Vale a pena esperar. :)
Na Marktplatz

Na Marktplatz

  • Vinicius

    Caramba, sempre que leio esse seu texto aprendo algo novo, impossível te agradecer por esse registro. Que Deus continue te abençoando.

    ps: Sou o mesmo Vinicius do último comentário ^^

  • vinicius

    Caramba, sério, tenho já uns dois dias namorando o teu blog, amei isso aqui, muito amor para vocês.

    “Minha maior declaração de afeição não será um beijo, mas sim o silêncio.” Bem verdade, às vezes a maior declaração de afeição é um silêncio. Divino esse teu pensamento :D

  • Lorranyb

    ..Talvez seja a melhor leitura entre muitos livros que já li.. huahua .. estas palavras ainda nos guarda algum livro?? espero que sim! =)

    • Oi, Lorrany! :) Primeiramente, seja bem vinda. Estou sonhando em escrever um livro, sim, mas por enquanto não será sobre esse tema. Se der certo, quem sabe nos próximos? :D Torce comigo? rs Beijão!

  • LINDO…………

  • Mario Herzog Braganca

    Filha, tenho tanto orgulho de voce e fico tao feliz em ver voces andando com Deus.
    Voces estao pintando, com os pincéis da vida, o quadro mais lindo do mundo: o seu lar, a sua familia. Deus os abencoe.

    • Mima Pumpkin

      Também tenho orgulho de você, papai. Obrigada por me ensinar tantas coisas.

  • Mariana

    Mesmo sem o frio europeu, resolvi ir lá lascar um beijo no meu marido! Parabéns! :)

    • Mima Pumpkin

      haha, boa! Sempre uma ótima idéia :D

  • Bia Bragança

    Mima, mais um texto perfeito, você expressa em palavras o que muitos sentem, você é demais e a melhor escritora que já vi. Bia

    • Mima Pumpkin

      “a melhor escritora que já vi”. Nossa, que elogio, Bia! Você é ainda bem jovenzinha, ainda vai ter a oportunidade de encontrar muitos outros escritores melhores. Mas, nesse meio-tempo, vou desfrutar da honra de ser sua escritora favorita :D

  • Rebeca Lima Teixeira

    Ah, lindo! O texto é maravilhoso, muito romântico. “Eu esperaria pelo meu amor uma vida inteira”. E a história de vocês é fofa!

    “Às vezes, eu e meu marido conversamos sobre o que estávamos pensando em um dia ou outro”. Eu acho que os casais felizes fazem issso durante a vida toda! E sempre parece que é a primeira vez… Digo isso porque meus pais amam fazer retrospectiva da primeira vez que se viram até o casamento. Eu cresci ouvindo, já sei de cor.

    Beijinhos e até mais!

    P.S.: Sabe, sobre esse futuro livro, é um romance, certo? E as chances de serem sobre uma história de amor são muito altas? Fatos que só aumentam a expectativa…

    • Rebeca, posso te decepcionar? Se tiver história de amor, não é bem o foco do livro… rs Ai, ai, agora estou me sentindo pressionada a colocar história de amor por motivos comerciais! Oh, não, estou sucumbindo à pressão da mídia! (Por mídia entenda comentários no blog . . . Por comentários do blog entenda … você). *suspiro* O que aconteceu com a arte? Tudo para agradar o público haha

  • Norma Barradas

    Seus textos são ótimos. Parabéns!

  • Minha amiga linda….famosa escritora que amo demais. Sinto muita falta das conversas maduras, alegres, dos momentos em que cantávamos juntas, você me ensinando a cantar em inglês…rs (lembra!?!) Foram tantos momentos maravilhosos que levarei comigo por onde quer que eu vá. Tenho você como minha irmã mas nova, minha amiga confidente. 
    Com certeza vale muito a pena esperar :) creio que minha história de amor será linda! ^ ^
    SAUDADE!!!!
    Bjs da Teozinha (Teobalda)…rs (Fernanda)

    • Também sinto muita saudade, Fer =** Papai do céu é fiel!

  • Lindo texto, adorei isso “Adoro que nas raras ocasiões que você se concentra em mim, seu olhar me diz que sou o centro do mundo. Mas, tudo isso é agora só combustível para melancolia. Esse vento correndo congelante entre nós me lembra o que essa distância denuncia — você não é meu e eu não sou sua, ainda não, talvez nunca.” Muito linda a história de vocês. Realmente um exemplo. Abraço.

    • Edson, também acho nossa história linda, mas tudo que Deus faz é lindo. O crédito não é nosso, de qualquer forma agradeço :D Abraço!