16 de outubro de 2013

A Feira do Livro de Frankfurt

“A minha esperança é ano que vem estar lá ou como blogueira, ou como jornalista, ou como escritora ou como funcionária. [pausa] Ou como alienígena…” Mima Pumpkin no vídeo sobre a Feira do Livro de Frankfurt 2012

Os que acompanham o meu Facebook e o Twitter sabem que minha esperança expressada nesse vídeo não foi vã e este ano tive a oportunidade de estar na Feira do Livro de Frankfurt em todas as categorias descritas acima (uma coisa meio esquizofrênica, eu sei).

No dia 27 de setembro, ou dois dias depois que desisti de ser chamada para trabalhar na feira e acabei comprando meus ingressos, fui chamada! Recebi um e-mail e mais tarde um telefonema que me explicava o que eu teria que fazer lá. Basicamente eu seria um “anjo” para os escritores brasileiros convidados, levando-os aos locais de evento pontualmente, fazendo pequenas traduções ou, sei lá, servindo cafezinho, impedindo que se matem, alguma coisa assim. Ah, MAS  (sempre tem um mas, não é?)… o trabalho seria voluntário. Claro, haveria uma pequena ajuda de custos, transporte estaria incluso e eu poderia visitar a Feira de graça. Como eu poderia recusar?

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Confissão #1: Fora o Pedro Bandeira, o Maurício de Sousa e o Ziraldo, eu não conhecia mais ninguém dos que viriam. E olha que eu chamo a mim mesma de uma entusiasta da literatura. Shame on me!
Confissão #2: Eu tinha um preconceito meio retardado em relação à literatura brasileira (e que preconceito não é retardado?). É que esse negócio de ter que ler clássicos na escola aos 14, 15 ou 16 anos é a ideia mais não-inteligente que existe (não quero chamar a ideia de completamente imbecil). Com essa idade, a maior parte de nós tem lá cabeça ou vocabulário ou noção para isso? É o famoso jogar pérolas aos porcos. Comi as pérolas e não gostei. Muito difíceis de mastigar.
Confissão #3: Paguei cada mico por causa disso! Micos comparáveis a “Ah, quem é você? Julia Roberts? Você faz o quê? É atriz, é?”[/grey_box]

O sonho: na Feira de 2012, ao saber que o Brasil seria o país homenageado deste ano, determinei em meu coração que terminaria de escrever meu livro e levaria o manuscrito para implorar aos pés dos editores que o lessem e me dessem uma cadeira na Academia Brasileira de Letras OU um Nobel. Não precisaria dos dois no mesmo ano, claro.

Os obstáculos: tragédias desnorteantes, minha própria incapacidade a me esbofetear, o Facebook. Alguma coisa aconteceu, só sei que não foi minha culpa! (…Riiiight.)

Antes da Feira: Sem um manuscrito para entregar, detestando a perspectiva do cansaço, do esforço e de ter que enfrentar escritores dos quais “nem Paulo Coelho ouviu falar”, quase desisti.

A realidade: foi uma das melhores experiências que já tive. Todos os dias chegava em casa exausta, mas eufórica.

Os escritores que conheci foram absolutamente fantásticos. Carlos Heitor Cony, Nélida Piñon, João Almino, Ignácio Loyola de Brandão, Laurentino Gomes são só alguns dos que pude ver, mesmo que à distância, e testemunhar da simpatia e da genialidade ao vivo. Eu pude conversar bastante com a Marina Colasanti (que, além de ser uma contadora de histórias maravilhosa, demonstrou bastante preocupação pela ‘minha carreira como escritora’), com o Antonio Carlos Viana (que garantiu que eu e algumas colegas estaríamos em seu próximo livro, “Os anjos moram em Frankfurt”), com o Cristovão Tezza (que é extremamente gentil e me deu uma cópia autografada do fantástico O Filho Eterno e Beatriz), com o Teixeira Coelho (que é um exemplo de cavalheirismo e seriedade), entre outros. Andei de braços dados com o apaixonante Pedro Bandeira, que é tipo um vovôzinho muito fofo, extremamente inteligente e o único homem do mundo capaz de levar uma platéia inteira de adultos às lágrimas ao narrar uma história infantil sobre sapatinhos abandonados. Pude também conversar um pouco com o Eduardo Spohr, autor do livro de fantasia mais vendido no Brasil, que não se demonstrou ofendido quando eu não fazia ideia de quem ele era e que ainda respondeu de forma super simpática todas as minhas perguntas sobre como entrar no mercado editorial e sobre como ele começou.

Enfim, a parte legal de tudo isso não foi só poder tietar autores e fingir na minha cabeça que nos tornamos melhores amigos (o que eu naturalmente também fiz), mas perceber que a literatura brasileira não é uma coisa elitizada e complicada, cheia de frufrus e de querer ser. A literatura brasileira é composta de humanos—carne e osso, pessoas humildes, pensadoras, com sentimentos e sonhos, pessoas que se perdem numa feira gigantesca, que se atrasam, que ruborizam ao falar em público, que não escapam de um sorriso quando são elogiadas, que adoram saber que foram lidas e apreciadas, que se magoam com críticas destrutivas, que também se perguntam o que estão fazendo ali, que têm experiências e ideias incríveis, que nem sempre conquistam aquilo que gostariam. Enfim, são os nossos livros que estão por aí. De pessoas como eu e você. E se continuamos com esse esnobismo bobo de que só o que é estrangeiro presta, damos as costas a nós mesmos. Porque assim também não teremos chances como brasileiros.

Fora isso: o pavilhão brasileiro estava LINDO, muito criativo e bem-planejado. Li num jornal uma crítica que dizia que lá tinha de tudo, menos literatura. Mas, excusez-moi, o que o jornalista esperava do pavilhão? Uma biblioteca? Acredito que os arquitetos foram muito além: usaram papel para a construção de todo o cenário (em homenagem aos livros), estamparam todas as paredes com referências literárias e criaram um ambiente totalmente interativo. Sinestesia geral—literatura no som, na imagem, no toque, no movimento. Quer dizer… tem gente que só quer criticar mesmo.

O lado negativo: Eu entendo o motivo pelo qual o Luiz Ruffato falou tão mal do Brasil e até mesmo o apoiei assim que li a respeito. É claro que tudo que ele falou é verdadeiro. Mas, me pareceu que assim houve da parte de alguns autores quase que uma tentativa sistemática e meio ingênua de difundir uma imagem negativa do Brasil no exterior. E não sei como isso é positivo para o Brasil. Não foi um pedido de ajuda. Foi um “ei, olhem, gente, nós somos horríveis. Vocês estão nos homenageando aqui, mas nosso país não presta”. Não sei. E é possivelmente essa a imagem que vai ficar. O que vocês acham? (Sem ataques, apenas opiniões)

Resultado: queria que o Brasil fosse tema da Feira todos os anos. E eu seria voluntária todos os anos! Vou sentir uma saudade tão grande das pessoas com quem trabalhei (não só os escritores, mas dos colegas de trabalho também). E o sonho doido de um dia ser publicada começou a zumbir nos meus ouvidos novamente. Por que? Eu não sei. Vai ver que porque quero ser simpática e amiga de alguma voluntária bobinha algum dia. Quero dizer para ela “você também pode chegar lá”. E dar uma cópia autografada do meu livro. Coisas tão simples que podem causar tanta alegria. Ou não, né? Vai que é pra dizer: “eu tenho, você não te-em!”

Ah, e o mais importante de tudo: tenho MAIS de 20 livros novos. Nada mal para uma feira que oficialmente não vende livros :D

 Conclusão: Livros são legais. O Brasil é legal. Ler livros brasileiros, portanto, é legal. Leiamos.

Cartazes para a divulgação da feira: