15 de fevereiro de 2013

A pior morte

Antes mesmo de abrir os olhos pela manhã, sabia que havia algo diferente nela. Não sabia exatamente o quê. Ainda sem acordar totalmente, deixando os pensamentos dançarem a caminho da consciência, mexeu os dedos das mãos, desenhou semicírculos com os pés, respirou fundo e tentou localizar a origem da dor. Não era bem fome, mas trazia o mesmo desespero moderado dela. Aquela coisa parecia pulsar ali dentro e se tornar maior a cada pulsada. E, despertando devagarzinho, constatou que, por causa dessa quase fome que doía sem se deixar localizar, todo o resto do corpo, da alma e da existência doía também.

Sentou-se bem de repente na cama e se olhou no espelho do armário em frente. Não era bem saudade, porque saudade iria doer na ânsia de se satisfazer. Saudade quer alguém ou alguma coisa. Não era o caso. Havia algo estranho em seus olhos. Estavam caídos e sem vida. Sua pele envelhecera anos do dia para a noite. Essa dor, essa doença, tinha quase que um quê de… de… amargura.

Mas, não, não podia ser.

Correu para o espelho e olhou para os seus olhos de perto. O diagnóstico estava, infelizmente, certo. Mas …como? Nunca tinha deixado nenhuma brecha para a amargura entrar em sua vida. Havia se precavido de todas as formas e até criado uma fórmula em sua mente para combatê-la sempre que surgia: quando sentia raiva de alguém, em troca estendia à essa pessoa compaixão (o que, admitia, nada mais era do que uma forma mais elegante e menos patética de sentir ‘pena’). Tentava colocar-se, sem sair do pedestal, no lugar dela. Tentava entender o que poderia ter levado essa pessoa a se tornar tão horrível, a situação miserável de sua vida, as emoções descontroladas de um mortal comum, a falta de reflexão dos menos evoluídos. Mas, de fato, agora ela realmente estava lá. Amargura viva, crua e tão poderosa a ponto de sufocá-la. Amargura a ponto de matar.

Como podia combatê-la se não tinha um alvo nem lugar? Amargura pela amargura, amargura pela vida, amargura pela injustiça de existir. Amargura pela falta de vontade. Ou apenas vontade de implodir?

Por quê? Porque a vida é difícil. Porque tudo que se ama se perde. Porque tudo que se deseja, não se alcança, ou, quando se alcança, não satisfaz. Porque a busca não acaba e a luta só se disfarça e, no fim, o fim é o mesmo. E não sobra nem resquícios de testemunhas para dizer que tudo valeu a pena. E, assim como o universo, findada sua carreira de expansão, passa a se contrair em curso de colisão consigo mesmo…—ah, mas, é essa então a questão da vida e do universo e de tudo mais, concluiu, interrompendo a si mesma. O ser humano se estica, luta pelo infinito, até que as forças se acabam e, quando isso acontece, se encolhe novamente até mirrar e sumir.

Então é por isso que a amargura está ali? Sem perceber, de repente, se chega no ápice do ciclo e se inícia irreversivelmente o caminho de volta?

Ah, mas, se é esse o fim, a colisão, por que a humanidade não se desespera? Por que prossegue?

Ela fechou os olhos e sentiu a umidade se acumular por debaixo das pálpebras. Amargura, mate-me de uma vez ou vá embora.

Silêncio.

Por que, por que ela mesma não se desesperava? Por que ainda tinha vontade de viver?

Seleção natural, é claro: os indivíduos que têm maior instinto de sobrevivência sobreviveram.

A natureza selecionou a injustiça? Selecionou a falta de respostas na vida? Selecionou as respostas prontas e os consolos superficiais?

Que droga. Morra, criatura, morra, gritou consigo. Porque já não sabia mais quem discursava—se a amargura ou ela mesma. E, por não saber a diferença, rendeu-se. Ali, com os olhos vidrados no espelho, escolheu. Não haveria mais criatura ou som ou perfume ou qualquer estímulo neste universo para alcançá-la, despertá-la ou emocioná-la. Porque viver doía e a possibilidade de amar, duplamente. Ah, e o medo terrível de nunca se tornar tudo o que deveria. E a ira—porque não é sua culpa! E a revolta—porque ninguém entende! E o cansaço—que sempre se repete! E as infinitas escolhas—das quais sempre se arrepende! E o julgamento dos outros—do qual nada se sabe, mas se sente!

E, foi assim que ela morreu, enquanto ainda vivia. Sepultada viva dentro de si mesma.

Sobre esse post

Esse post foi inspirado em algum momento que posso (ou não—vamos manter o mistério) ter vivenciado em alguma época da minha vida. Na Bíblia, o autor de Eclesiastes vivenciou algo muito parecido e muitos Salmos também demonstram essa total falta de esperança, quando as respostas-padrão que costumamos dar já não mais trazem satisfação. Não existe frase feita relevante pro sofrimento. A única que enxergo como uma semisolução para o dilema da existência é o versículo no final de Eclesiastes:

“… [Deus] pôs no coração do homem o anseio pela eternidade” – Eclesiastes 3:11

A desesperança é, de fato, a triste conclusão lógica de se enxergar essa vida como um fim em si só. Sem a perspectiva de eternidade, não pode haver propósito.

  • Já passei por momentos assim,momentos esses em que eu não tinha uma pespectiva de uma vida
    eterna ao lado dos meus,momentos esses em que achava a morte um fim, acabou-se a vida não existe mais, momentos esses que achava que Deus não me queria,não me abençoava… Passado, distante, pq hj sei que ele me ama, e ler isso fez me ver o qto eleme ama!!!
    Adorei, como sempre Mima, suas palavras me tocam.
    Bjs

  • Excelente, Mima! Amei seu texto. Sim, a falta de esperança é muito triste. Creio que muitos passam por um momento or momentos de questionamentos como este, e em desespero da falta de respostas, se suicidam.

    Ligia