16 de junho de 2012

Ai, Virginia Woolf, assim você me mata

ou Porque calar-se dói nos ossos
ou Mais uma voz entre um milhão 
oMedíocre, mas feliz

O dilema:  escrever ou não escrever? Eis a questão. Ando a torturar-me com a ideia e a prática de tentar finalmente escrever um livro até o fim. Mas, a questão verdadeira é: escrever por quê?

Fama e prestígio? Dificilmente. Para fama e prestígio no Brasil melhor dançar axé ou compor alguma música grudenta.

Um mero sonho infantil? Se sim, eu não deveria ainda querer ser astronauta, atriz, Uma Linda Mulher, a Rachel do Guarda Costas e a Hera Venenosa do Batman? (Apesar que, pensando bem, esses eram péssimos sonhos infantis o.Ô).

Por que, por que temos essa necessidade terrível de escrever, escrever, escrever, derramar vocabulário e sentimentos, projetar, tentar capturar o incapturável, o momento único que já passou, o ponto de vista efêmero e irrecuperável, os detalhes que todos veem, mas de ângulos tão diversos?

Será que é porque esse é meu ângulo único? E é um ângulo que enxerga uma pequena mas valiosa parcela de toda a beleza e toda a dor, de toda poesia e da inteira grotesticidade (inventei essa agora) e ironia e alegria e velocidade da vida?

Ao mesmo tempo, sabemos que todo mundo tem um ângulo. E sabemos que somos só mais um entre milhares. E, para mim, Virginia Woolf grita constantemente “medíocre! mediana!” com frases do tipo:

Um bom texto tem que ter uma qualidade permanente em si, que feche uma cortina ao nosso redor, mas que essa cortina nos feche do lado de dentro e não do de fora“.

e

Uma obra prima é algo dito de uma vez por todas, declarada, terminada, de forma que esteja lá completa na mente, mesmo que só no fundo dela“.

Virginia, por que você faz isso comigo?  Por que estabelece padrões tão altos?

E, por que, mesmo sendo só mais uma, ainda preciso escrever? Pelo mesmo motivo que escrevemos nos murais do Facebook? Pelo mesmo motivo que desenhavam nas paredes de cavernas? Por que pintar? Por que fotografar? Por que precisamos nos expressar?

Talvez estejamos cientes de que logo não estaremos mais aqui e essa é nossa tentativa de embalsamar as próprias memórias. Ou porque seja a forma de ter sonhos coletivos, embarcar nas mesmas aventuras à distância e não nos sentirmos mais tão sós. Ou porque o fato seja que vivi e ninguém sabe disso! Ou porque a arte seja linear e simples, mesmo quando complexa, comparada com todas as ramificações da vida verdadeira. Ela faz sentido, mesmo quando não faz. Tem um motivo, mesmo que niilista.

Uma voz entre um milhão! E cada uma grita seu próprio ângulo, único e precioso só para si.

Ou, talvez, bem no fundo, o que busquemos não é ser a voz única de nosso único ângulo. Pelo contrário, nossa busca é pelos ângulos iguais, a identificação com o próximo. . . todos esses detalhes, todos os sinônimos e adjetivos, têm uma única função que é pedir: “sinta-se na minha pele e sinta-se um igual. A eternidade guardará oculto este ângulo congelado e embalsamado. Mas, enquanto vivo, tenho você, meu próximo, meu leitor e meu amigo, para finalmente ser capaz de me entender“.

Tantos possíveis motivos. No final, só um se prova legítimo em todas as ocasiões: preciso escrever porque preciso escrever.

O profeta Jeremias dizia que quando tentava não falar mais sobre Deus acontecia “como se um fogo ardesse em meu coração, um fogo dentro de mim. Estou exausto tentando contê-lo; já não posso mais!“. Da mesma forma afirmou o Rei Davi que enquanto calou seus pecados, “envelheceram-se os ossos“.

Cheguei à conclusão de que existe uma espécie de ácido na verdade calada e não expressada, que queima por dentro até os ossos. E toda boa história é uma verdade, uma expressão sincera da alma de alguém, mesmo quando disfarçada de ficção. A verdade precisa sair! E, quando sai, continua a queimar: o escritor, o leitor, o relator, o dono do discurso, quem seja, mas de uma forma quentinha, agradável e restauradora. (Pensando aqui comigo mesma nos discípulos na estrada de Emaús que sentiam o coração queimando. É o poder da verdade declarada!)

O que isso significa? Que mesmo que a figueira não floresça, mesmo que não hajam comentários (a-hem), mesmo que não haja identificação do próximo comigo, mesmo que meu ângulo não seja assim tão único e mesmo que a Virginia Woolf role no túmulo (ou, melhor, suas cinzas se remexam na terra) em desaprovação, aqui estou! Como diz minha amiga Natashinha: “I may be only one voice in a million, but”  ninguém vai “take that from me“.


Natasha Bedingfield — Strip Me – MyVideo

Todo dia eu luto por
Todas as coisas do meu futuro
Mil pequenas batalhas
Entre as quais tenho que escolher
Eu poderia passar uma vida inteira
Ganhando coisas que eu não preciso
Mas isso é como perseguir o arco-íris
E voltar para casa de mãos vazias
 
E se você tirasse tudo de mim,
Tirasse tudo isso 
Se você tirasse isso de mim,
O que você iria encontrar?
Se você tirasse de mim,
Tirasse tudo isso
Eu ainda assim ficaria bem
 
Pegue o que você quer
Roube meu orgulho
Me eleve ou me corte no tamanho desejado
Me cale, mas eu só vou gritar
Eu sou apenas uma voz em um milhão
Mas você não vai tirar isso de mim
Oh oh não, você não vai tirar isso de mim
 
Eu não preciso de um microfone
Para dizer o que eu ando pensando
Meu coração é como um alto-falante
Que está sempre no volume alto
 
E se você tirasse isso de mim,
Tirasse tudo isso
Se você tirasse isso de mim,
O que você encontraria?
Se você tirasse isso de mim,
Tirasse tudo isso
Eu ainda sou a mesma
 
Porque quando tudo se resume
No final do dia
É o que você faz e diz
Isso faz de você quem você é
Faz você pensar, pensar nisso, não é?
Às vezes tudo que é necessário é uma só voz