16 de abril de 2013

Bloqueio de escritor

— Por que você não escreve uma história de amor?

Os dedos calejados tentavam em vão eliminar os nódulos de tensão nas costas dela. Ela estava inclinada, com os braços e tronco largados sobre o próprio colo e a cabeça pendendo ao chão em sinal de rendição. Ele, ajoelhado ao seu lado sobre o assoalho duro de madeira, alternava entre massagens e cafunés. E esperava com paciência. As “crises de escritora”, como ambos acabaram por apelidar, costumavam demorar entre alguns minutos e diversos dias para acabar.

— Eu não consigo escrever histórias de amor! — ela reclamou, muito mais histérica do que pretendia.

Ele ergueu algumas mechas de cabelo que lhe caíam sobre o rosto e acariciou-lhe de leve a bochecha. Depois ergueu seu queixo com cuidado e beijou-lhe lentamente os lábios, os olhos, a testa.

— Vai dar tudo certo, meu amor. Você escreve tão bem e é tão romântica. Por que você acha que não consegue escrever sobre o amor?

Ela inspirou fundo e fitou diretamente aqueles olhos CASTANHOS que tanto admirava e se deixou perder por uns instantes. Se fechasse os próprios olhos, ainda assim os veria: sempre presentes, sempre apaixonados, sempre exclusivamente seus. Ainda enxergaria aquele rosto onde, de tão bem que conhecia, cada sarda tinha nome e a variabilidade da profundidade de cada ruguinha de expressão não passava despercebida. Depois de tanto tempo ainda sentia isso—essa força assustadora que a atraía e roubava-lhe o fôlego, a emoção de ter um sonho tão impossível concretizado. Quem é esse homem, meu Deus do céu, que pode ser tão maravilhoso e, ao mesmo tempo, se deixa ser chamado de seu? Aquele sorriso, a barba áspera, os braços fortes, o perfume, a voz reconfortante. É tão difícil estar perto dele e pensar em alguma outra coisa que não seja . . .

— Você me bloqueia! — ela explodiu e imediatamente se levantou para sair do campo de gravidade do rapaz. Foi até a janela e respirou profundamente.

Ele sentou-se no chão e esperou, esforçando-se por manter de fora uma dose merecida de frustração. Mas, já a conhecia o suficiente para saber que uma declaração dessas não viria sem explicações. Ela ainda se demorava em escolher as palavras. Estava agitada, quase distônica—um efeito colateral costumeiro da crise—quando, de repente, pareceu ficar fora de si de… felicidade.

— Mas, é claro! — ela riu e bateu palmas, como que estando em outro universo. Os olhos dela se voltaram para os dele, risonhos e brilhantes. Graças a Deus, a crise passara.

— Deduzo que agora não te bloqueio mais? O efeito acabou? — ele brincou, pondo-se de pé com um meio sorriso irônico.

— Não, você ainda me bloqueia totalmente. — sorriu com todos os dentes e rodopiou cantarolando.

Ele a segurou pelos ombros e exigiu com o olhar. Ela fez careta.

— Você não vai me explicar?

— Quem sabe um dia… — ela sussurrou, tentando ser sedutora, mas ciente de que estava fracassando. Depois anunciou, quase séria: — Só quero que saiba que eu prefiro assim.

E, naquele dia, ficou por isso mesmo. Ele deixou para lá, porque sabia que, às vezes, nem ela mesma se entendia e gostava de brincar de enigmas sem soluções. Ele só não sabia que dessa vez não era assim. Eu só tenho conhecimento disso, com toda a certeza, porque ela escreveu à noite em seu diário segredos para a posteridade. Ela poderia ter contado a ele, naquela mesma noite, toda a verdade. Mas, não fez isso. Sentiu vergonha.

No meio das palavras gaguejadas, eu sorriria com os cantos da boca para baixo e ele já me leria todinha. Que graça tem isso? Quero mais desvendar um capítulo de cada vez.

Sim, era teimosia. E disso ela também sabia. Naquela noite, como que se autoelucidando, postou no Instagram uma frase do psicólogo Philippe Brenot no livro O gênio e a loucura:

“…todos esses romancistas que, em algum momento, acharam ter perdido o paraíso escrevem – escrevemos – para tentar recuperá-lo, para recuperar aquilo que foi embora, para lutar contra a decadência e o fim inexorável das coisas.”

No diário, ela copiou a frase com caneta colorida e rabiscou abstrações ao redor da página antes de ousar enfrentar o assunto. As próprias palavras, sentia, eram fracas e só admitidas na promessa da confidencialidade:

Tenho AGORA, Philippe Brenot, o paraíso nas mãos
E é de propósito que esqueço o quão facilmente ele pode esvair-se
Acabar . . . Escapar . . .
Tal qual areia entre os dedos.

Mas, às vezes, meu caro Philippe, é bom esquecer
E, nesse caso, é liberdade
Não ter a capacidade de escrever
Como escrevem sobre a água
Os que morrem de sede
Ainda que seja pelo simples privilégio
de amar SEM MEDO DA PERDA
E se deliciar, SEM SE FORÇAR SAUDADES…
Sofrendo pelo que ainda se tem.

A caligrafia a partir desse parágrafo foi perdendo a simetria à medida que lembranças de um passado distante despencaram sobre sua mente:

Porque por GRANDE PARTE da minha vida, Philippe
Misturei a dose recomendada de melancolia
À toda e qualquer alegria
Para não ser surpreendida pelo FIM, sabia?

Mas, com essa disciplina, que resultados ganhei?
Apenas momentos de semi-vividas felicidades
E lamentos, infelizmente, só pela metade
Como escrito está
— Porque são nem frios nem quentes
Vou logo vomitá-los da minha boca.

E quando, de fato, a tragédia aconteceu . . .
Ah, EU já sabia.
E já a degustava desde o meu princípio
Adivinha? SEM NECESSIDADE
Já que a dor doeu
Mesmo sem o choque da novidade.

Então, Philippe, você entende…
Serei mimada com meu paraíso
Sem antecipar despedidas
Nem últimos olhares
Nem cultivar apegos desmedidos

Porque quando olho para ele
Quase que sinto, juro, o gosto—é exagero?
Da eternidade
Completo—a lua, o sol e eu
Todos, em nossos devidos lugares
Cumprindo o ciclo pré-determinado
Desde OLAM, o que sempre foi e sempre será

Sorriu e concluiu num parágrafo que leu para si mesma em tom solene:

Então é POR ISSO que não sei escrever
Assim tão eloquentemente sobre o amor
Pois não tenho CARÊNCIAS
Nem FANTASIAS
Já que NELE eu vejo todas elas cumpridas.
É o meu PARAÍSO
Que não PRECISO recuperar
Apenas DESFRUTAR…

E, com um olhar contrariado de resignação, acrescentou por último em maiúsculas:

…ENQUANTO FOR POSSÍVEL.

O diário foi fechado e esquecido. Como era de se esperar, muitas décadas depois, o possível, de fato, não foi mais. O Paraíso, perdido.

Nesse tempo, entre a grande descoberta e o encerramento, ela escreveu, não sem centenas de outras crises, muitos livros de mistério, aventuras incríveis, jornadas inventivas da psique humana e até mesmo uma tese de doutorado sobre um tema que se enquadra entre as categorias ocupadas por condimentos apimentados e monstros marinhos.

nunca histórias de amor.

  • Eu tb nunca consegui escrever sobre romances, nem na faculdade.

    “Então é POR ISSO que não sei escrever
    Assim tão eloquentemente sobre o amor
    Pois não tenho CARÊNCIAS
    Nem FANTASIAS
    Já que NELE eu vejo todas elas cumpridas.
    É o meu PARAÍSO
    Que não PRECISO recuperar
    Apenas DESFRUTAR…”

    Muito bom Mima… adorei.

  • Como sempre me supreendendo né?
    Amei, ao ler esse poste me senti como se estivesse presenciando a cena, como
    um filme… daqueles que queremos saber mais ver a continuidade da historiado casal.
    Li até o ultimo ponto e aqui estou na sede de quero mais, um pedido de que escreva, conte,
    va mais além nessa historia linda!
    Beijus e
    QUERO MAAAAIS!