4 de junho de 2012

Carta aberta à Katniss (Jogos Vorazes)

Querida Katniss,

Venho, por meio desta, agradecer-lhe a amizade que desenvolvemos durante esses três livros que se passaram. Gostaria, no entanto, de avisá-la que gostaria de tê-la conhecido mais cedo, quando eu realmente precisava de você.

Não me entenda mal, eu ainda a admiro e, às vezes, quando incerta sobre uma coisa ou outra, em um nível superficial ainda penso: “Lembre-se da Katniss”.

Mas digamos que, agora, aos 25 anos de idade, estou finalmente e lentamente me encaixando no contorno da pessoa que eu sou. Há uma espécie de sossego satisfatório em encontrar meus contornos, como se todo esse tempo estivesse desesperadamente buscando a resposta para a pergunta “quem quero ser?”, quando a única pergunta necessária era “até onde eu quero ser?”

E descobri que nunca seria a Britney Spears, nem a Ariel, nem a Angelina Jolie, nem nenhuma das outras mulheres admiradas pela minha geração. (Tá, da minha geração, talvez só eu admirasse a Ariel).

Mas gostaria de tê-la conhecido, porque, no processo de me encaixar em meus contornos, eu não teria tentado tanto esticá-los artificialmente para ser uma popstar, uma atriz ou uma sereia em um desenho animado.

Eu teria me encontrado mais cedo. Eu saberia que, em minha vida de classe média no Brasil, eu já vivia com conforto e riquezas maiores do que a maior parte da humanidade na maior parte da história da humanidade. E saberia que todo luxo que necessito são roupas que me abrigam, um teto sobre minha cabeça, alimento que me sustenta e meus relacionamentos mais próximos. Uma ducha quente é um privilégio, não uma necessidade. Uma xícara de chocolate é uma indulgência digna de reis.

Eu teria aprendido que, se quiser, posso ser bela aos padrões atuais da sociedade, mas que essa beleza não me define minimamente. Que a luta pela sobrevivência não é coisa de miserável, mas faz parte de ser humano e de existir. E que existem limites para o que se faz por essa sobrevivência. Sempre existem limites.

Eu teria aprendido que ser uma mulher forte não é saber seduzir audiências dançando em roupas de colegial nem fugir de casa pelo seu grande amor. Ser uma mulher forte é ir para onde está a luta, se isso for necessário para o bem dos que você ama.

E aí também talvez teria enxergado o quão fútil e enganoso é o aplauso alheio, especialmente dos que só a vêm à distância e não fazem idéia do que se passa em seu coração. Sim, tantas milhões de pessoas podem estar erradas. Porque as coisas que elas aplaudem e que eu, presa no Capitólio em que fui criada, também estupidamente aplaudia, não é nada das coisas que fazem de você uma mulher realmente admirável.

E fico feliz que agora eu e, quem sabe, graças a você, muitas outras meninas também saibam, que a única pergunta é: até onde?

Existem, sim, valores inegociáveis que não devem ser sacrificados nem sob pena de morte. Existem coisas maiores que a luta pela sobrevivência e que a própria vida. Existem limites, existem contornos.

Eu tentei escapar aos meus contornos, mas fico feliz que não consegui. Obrigada, Katniss, por viver tão bem dentro dos seus e mostrar a todas que a vida é mais confortável aqui dentro.

Então, respeitosamente beijo meus três dedos médios a você.

katniss

Com carinho,

Mima Pumpkin

Para quem não entendeu: esse post se refere à trilogia de livros “Jogos Vorazes” de Suzanne Collins. Sim, existe um filme. Não, não é tão bom quanto o livro e com ele você provavelmente não enxergará nada do que enxerguei na Katniss. Ver filme é bom, ler é melhor! ^^