10 de novembro de 2014

Carta para o passado

Quando eu tinha uns 13 anos de idade, minha escola resolveu criar uma „cápsula do tempo“ e pediu para que nós da sétima série escrevêssemos uma cartinha para nós mesmos no futuro. A cartinha seria enterrada e só seria novamente revelada em XX anos. (Não faço ideia quantos—será que já passou?)

Fico intrigada para saber o que escrevi porque realmente não lembro.

Imagino que o que eu tinha para oferecer na época eram mais perguntas do que conselhos e muito mais curiosidade do que sabedoria. Afinal, a minha eu presente era para aquela minha eu pré-adolescente uma completa estranha. Alguém intrigante, mas, principalmente, intimidante. Uma espécie de celebridade idolatrada a quem se pode até confidenciar segredos em cartas mas que certamente provocaria tremores e desmaios num encontro face a face.

O que eu teria a dizer para mim? Nada demais. A minha eu futura ainda não surgiu e ela sempre estará alguns passos à minha frente.

Então, fiquei curiosa a respeito do caminho reverso. A minha eu futura sempre me será uma estranha. Já o meu passado conheço muito bem. Ela ainda vive dentro de mim, escondida, silenciada, abrindo espaço para o presente.

Por isso, me propus a escrever para o meu passado.

Resolvi que escreveria uma carta à mão, já que naquela época eu mal tinha acesso à internet e acho que quando se quer comunicar com o passado é necessário usar uma linguagem que ele entenda.

Com a sensação estranha de uma caneta em punho e um papel de carta à minha frente, visualizei a pequena idealista com o uniformezinho da escola e olhei bem nos seus olhos sonhadores.

E quis chorar.

A tarefa era muito mais difícil do que imaginei.

A primeira dificuldade foi a decisão dolorosa do quanto eu revelaria do seu futuro.

Como ela reagiria se soubesse os momentos terríveis de dor e desespero que haveria de enfrentar no futuro? Prosseguiria? Ou desistiria da vida?

E se ela soubesse que muitos dos seus sonhos se realizaram de fato, mudaria alguma coisa? Faria valer a pena?

Mas, será que entenderia que os sonhos realizados só iriam despertar nela um apetite insaciável por mais sonhos realizados? Será que teria condições de entender que nada disso jamais a satisfaria?

Nada é como parece—algumas coisas são melhores ainda—mas todas são acompanhadas de um preço altíssimo.

Então volto para o meu presente observado pelos olhos da pequena: sombrio e brilhante—misto de felicidade e agonia—e tantas, tantas cicatrizes (que nada mais são que a colisão no tempo de ferida e cura).

Insuportável, inevitável, incompreensível, grandioso, fantástico. Deus, como vim parar aqui? Como escalei essa montanha?

E minha eu passada me olha com olhos esperançosos e cheios de admiração lá de baixo, e eu me quebro toda. Não, meu amor, você não deve saber nada do caminho pelo qual terá que passar. Você ainda não é forte o bastante. Mas, não precisa temer, porque (agora) eu sou.

E sobre quem eu me tornei? Será que devo lhe revelar alguma coisa?

Tenho vergonha das coisas que deixei de fazer ou aprender porque tinha medo ou preguiça ou estava ocupada demais com meu ego, minha timidez, com o que iriam pensar, com hobbies inúteis, com meu excesso de sensibilidade e a incapacidade de aceitar críticas.

Tenho vergonha dos objetivos que ainda sou incapaz de alcançar por tudo isso e mais por falta de disciplina, pela inconstância das emoções, pelos pensamentos conflitantes e medo, muito medo, de descobrir que não sou capaz no fim das contas.

Não sou exatamente a pessoa que eu esperava ser. Por favor, por favor, me perdoe se a decepcionei.

Por outro lado, tenho tanto a lhe agradecer. O que tenho de bom hoje é fruto das suas boas decisões. O seu sacrifício, a sua paciência, o seu idealismo, a sua persistência em seguir escolhas absolutamente impopulares. Você não deu ouvidos para os bobos. Obrigada, minha fofinha. Você sofreu tanto por mim e valeu muito a pena.

Por favor, não se despreze tanto. Você vai melhorar em algumas coisas também. Mas você já tem qualidades que não enxerga, qualidades que são valiosas… e extremamente delicadas. Você deveria cuidar delas, porque pode perdê-las muito rapidamente também. A inocência é um dom—a fé não deve ser contaminada—cinismo não te faz engraçada—grosseria não é atraente—ceticismo e amargura não a protegerão—e o desapego vem acompanhado da solidão.

Hoje posso olhar para você com um olhar de amor profundo—um amor que sou incapaz de dedicar a mim mesma. Tenho profunda reverência pelo seu coração. Adoro seus pensamentos. Suas esquisitices engraçadas. E você ainda é jovem, tem muito a aprender.

Por favor, não desista, mesmo quando tudo parecer tão insuportável. Você vai cometer muitos erros e passar por muita coisa que não suportaria descobrir ainda só porque você ainda não é forte o bastante—mas, não se preocupe, eu sou. Não deseje a morte—a vida é linda, misteriosa, cheia de surpresas, mesmo com todas as suas sombras e desvios. E milagres acontecem.

Apegue-se em Deus. Ele a ouve e responde, mesmo que às vezes você só perceba isso num eco que ressoou lá no futuro.

Cuide da sua saúde. Às vezes parece chato e você quer mais é „curtir“, mas você vai curtir por mais tempo se se cuidar. Eu sofro um tanto hoje em dia só porque você foi tão teimosa nessa área.

Não tente se parecer com outras pessoas—você vai descobrir que elas nem eram tudo isso que você achava. Se for querer imitar alguém, imite somente a Jesus, o homem mais maravilhoso que já existiu. Não largue seus ideais—mesmo que sejam mera utopia. Eles a colocam de volta na linha.

Fuja da maldade, da fofoca, do sarro à custa dos outros. Você pode ser tão melhor que isso. E não seja tão hipócrita—você não é melhor nem pior do que a maioria. Então, seja mais tolerante—com você e com os outros.

É, minha querida, só para concluir: resolvi escrever para você num blog, porque na sua época vocês costumavam usar a internet e precisava que você lesse isso.

Não sei se é possível, mas acredito. Espero que com este post você faça escolhas mais acertadas para o futuro.

Com um abraço apertado, desejando muita paciência, sabedoria, persistência etc.,
Eu.

  • Ana

    Medo de não ser boa o suficiente. Eu me identifico, e como!

    Já escrevi uma carta dessas pra minha eu adolescente também. O exercício é maravilhoso e nos dá ainda mais esperanças pelo futuro, porque lá no fundo ainda somos a mesma pessoa, e os conselhos pro passado podem ser válidos daqui pra frente também.

  • Eu amei tanto este texto que acho até chato deixar um elogio que não faz jus a quão maravilhoso ele é, então vou resumir: muito obrigada por postá-lo, Mima!

    • Brendinha, minha fofa, uma saudade de você! Obrigada por lembrar de mim e dar uma passadinha aqui ^^ :* quando você vem visitar? hehe :D <3 <3 <3

  • Samanta Sasse

    Eu me identifiquei com cada palavra. Me deu até um pouco de vergonha por não manter metade da firmeza que meu passado tinha. Todos os sacrifícios que um dia lá, quando menor, eu fiz, hoje não são metade para o meu futuro. Obrigada.

  • Meus olhos estão marejados de identificação.

  • Maravilhoso! Acredito que se eu pudesse deixar um recado para o meu eu do passado diria para ser persistente e como você disse ser mais como Jesus.