24 de junho de 2013

Comentários sobre o livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

A história é sobre Guy Montag, 30 anos, e se passa no futuro, num mundo dominado pela tecnologia, onde as relações entre as pessoas se deterioraram num nível assustador. A normalidade dita que não se olhe nos olhos uns dos outros e a arte da conversação não é praticada.

Com o crescimento da população, a produção cultural foi se tornando cada vez mais imediatista. Livros foram condensados e resumidos em algumas páginas, para que, sem muita “perda de tempo”, uma pessoa pudesse ler todos os clássicos que seu vizinho gabava-se de ter lido. Filmes também sofriam mais e mais edições, assim como artigos de jornais e revistas. Ninguém mais tinha paciência pra dedicar muito tempo a essas coisas.

Para controlar a massa, o conteúdo cultural passou a ser intencionalmente vazio de significado e toda atividade intelectual, desnecessária e hostilizada. O governo utilizava-se de invenções tecnológicas para explorar a população. As pessoas ficavam o tempo todo com fones nos ouvidos que afogavam os sons da vida real e cuja programação mantinha suas mentes ocupadas e distraídas do que importava.

Quando não era isso, eram os supertelevisores. De um tamanho descomunal, suas imagens e sons invadiam as casas com uma espécie de novela interativa, mantendo as pessoas presas como num feitiço, imersas na vida social de amigos imaginários, ocupando todo o seu tempo livre, levando-as a abandonarem atividades triviais como jogar uma conversa fora com o vizinho, fazer caminhadas, sentar-se na varanda para apreciar o pôr-do-sol, ou seja, impedindo-as de pensarem por si mesmas. Fazia parte da estratégia do governo que todos pensassem igualmente.

Havia uma falsa impressão de felicidade, o mundo parecia perfeito, o que impedia que a população questionasse essa nova ordem de vida. Um ambiente assim serviu de terreno fértil para plantar a semente que fazia dos livros inimigos. Os livros diziam a verdade, revelavam os problemas e dissabores da vida. Com isso passaram a ser uma ameaça a essa forma homogênea de pensar e precisavam ser exterminados – no caso, queimados. O nome do livro é uma alusão à temperatura em que o papel pega fogo.

Aí que entra a incômoda pergunta: quão diferente esse mundo é do nosso? Nos dias de hoje, o discurso de que a tecnologia está substituindo as relações humanas não é já exaustivamente repetido? O quanto a internet está roubando do tempo que eu e você dedicaríamos a ler um livro, por exemplo?

Uma das minhas frustrações quando eu termino um livro é a consciência que eu não vou conseguir guardar pelo tempo que gostaria a sensação ou o impacto que ele teve em mim. Sabe aquela história que você lê e te inspira a fazer as coisas de um jeito diferente? Mas, livro vai, livro vem, o brilho vai se perdendo e você volta a agir da forma antiga. Até que um novo livro caia em suas mãos com uma mensagem parecida e desperte novamente em você as resoluções esquecidas. Essa é uma das maravilhas do livro, apontar o que a gente está fazendo de errado.

“Talvez os livros possam nos fazer sair um pouco deste buraco negro. Talvez eles possam nos impedir de tornar a cometer os mesmos erros.”

Agora que me ocorreu que eu escrevi um monte e nem falei da minha personagem favorita, Clarisse, que mesmo tendo aparecido só por uma brevidade incidiu um grande impacto na vida do Montag. Fica como um brinde-surpresa pra quem ainda não leu o livro, e assim poderá descobrir tudo sobre ela. ;)

Curiosidades

  • Como já mencionei, a história se passa no futuro. Meu livro menciona o ano 2022 mas parece que o ano varia conforme a edição, tendo aparecido em algumas como 1960. (O livro foi escrito em 1953).
  • Um personagem compara o cheiro dos livros a noz-moscada. (!)
  • Diversos livros da Bíblia são citados na história, em especial Eclesiastes.

Quotes

“Não podemos dizer precisamente o momento em que a amizade nasce. Quando se enche uma vasilha gota a gota, tem uma última que a faz transbordar. Do mesmo modo, numa série de atitudes gentis, tem uma última que faz o coração inundar-se.” — James Boswell

 

“As coisas que você está procurando, Montag, encontram-se no mundo, mas o único jeito de um cidadão comum conhecer noventa e nove por cento delas é num livro.”

Capas do livro

 

  • Bruno e Bianca >> até teve umas partes em que a história nao me prendeu muito. Mas no geral acho muito válida a leitura.

  • Ótimo texto Mimi. Eu sempre via esse livro na biblioteca da escola e apesar de o título me chamar atenção, nunca o peguei para ler. Achei bastante interessante a história e me despertou ainda mais vontade de ler.

  • Bruno N.

    Muito bom, Mimi! Fiquei com vontade de ler.

  • Mimi, achei demais! Agora é engraçado que o Ray coloca a tecnologia como vilã e responsável pela alienação da população (e confesso que também tenho a tendência a enxergá-la assim), mas, por outro lado, dizem que o tal do ‘despertar’ na população brasileira no momento tem justamente a tecnologia como aliada, afinal as redes sociais foram parcialmente responsáveis por movimentar tudo isso que está acontecendo! Enfim, são dois lados da tecnologia.

    • Mimi Trancinha

      Pois é, o que seria do MPL sem os manifestantes de celular em punho pra registrar o que foi bem sucedido e também o que não estava certo, né.
      Mas lendo essa história soa aquele alarme de como é perigoso a gente perder o senso crítico e não questionar as informações que despejam na gente diariamente. É muito fácil ser manipulado pela mídia, e não estou falando só da imprensa, entram aqui as atualizações de status via Twitter e Facebook também. É muito importante a gente correr atrás da verdade e chegar a nossas próprias conclusões.