4 de abril de 2016

Como me transformei em uma fanática

Eu me considerava uma pessoa interessante — vide um site cujo domain é meu apelido. Eu era afinal uma pessoa cosmopolita com hobbies diversificados, tinha uma opinião sobre quase tudo, uma argumentação controlada, aptidão com palavras e geralmente andava a par dos andes e desandes do planeta. Formada em jornalismo, tinha curiosidade em relação a quase tudo — de neurologia e Tolstoi a cosmética e Stephanie Meyer — da origem do universo a receitas de bolo — e enxergava nessa mistura eclética a visão de mundo mais equilibrada possível.

Não tenho escrito mais porque sinto que se o fizer serei totalmente monotemática — por causa da mudança que houve em mim — da minha paixão, minha obsessão, meu coração — é a fase da minha vida em que tudo que faço se volta a uma mesma coisa — e não importa sobre o que escreva, de alguma forma minhas sinapses me enrolam e fazem tudo se voltar para esse mesmo tema — o determinante da minha existência — o tema que me consome, corre nas minhas veias, determina minhas horas de sono e o meu suor todos os dias.

Sim, eu me tornei uma fanática. E nem me arrependo disso.

Eu sei que a palavra fanatismo é carregada negativamente. Para mim sempre foi sinônimo de loucura. Já o Michaelis define assim:

fanatismo fa.na.tis.mo sm (fanáti(co)+ismo) 1 Excessivo zelo religioso. 2 Facciosismo, partidarismo. 3 Dedicação excessiva a alguém, ou a alguma coisa; paixão. 4 Adesão cega a uma doutrina ou sistema.

A definição 3, “dedicação excessiva a alguém ou a alguma coisa; paixão”, definitivamente me descreve. Eu confesso: eu me tornei uma cristã FANÁTICA!

Pode ser que eu seja doida de pedra, mas defendo firmemente a tese de que o fanatismo cristão é a total antítese daquelas características que são consideradas típicas de um fanatismo religioso. Pelo contrário, creio que se todas as pessoas se tornassem cristãs fanáticas (especialmente as que já se consideram cristãs!), o mundo seria bem melhor. Basicamente:

Seguir a Jesus de forma fanática é a total antítese daquele famoso sentimento religioso arrogante e egoísta. Jesus precisa ser necessariamente o maior exemplo de vida de qualquer cristão fanático. E ele foi o maior símbolo de humildade que já existiu nesse mundo — aquele “que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte!” A Bíblia nos convoca a ter a mesma atitude de Cristo, nada fazendo “por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerando os outros superiores a si mesmos. Cada um cuidando, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.” (Filip. 2:3-8)

Fazer o bem sem olhar a quem!

Seguir a Jesus de forma fanática é a total antítese da intolerância e militância religiosa / guerra santa. Jesus é o inventor da liberdade religiosa. É ele que diz aos corações: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo.” (Apc. 3:20) Perceba que ele não diz: “eu arrombo a porta, não importa a sua vontade, porque eu sou maior que você”. Nos Evangelhos vemos um Jesus que, a contragosto da população judaica oprimida pelos romanos, recusava o embate armado contra seus opositores. Que a contragosto de todos, dizia “Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem”. (Mat. 5:44) Sei que muitas pessoas que afirmaram (e afirmam) seguirem a Jesus foram intolerantes — vide a Inquisição, as Cruzadas e os comentários no Youtube hoje em dia. Mas essas pessoas não são seguidoras de Jesus — são outra coisa totalmente diferente.

Segundo a Bíblia, só existe um tipo de seguidor de Jesus que agrada a Deus: o seguidor fanático. A moderação em questões de fé é descrita dessa forma na Bíblia: “Conheço as suas obras, sei que você não é frio nem quente. Melhor seria que você fosse frio ou quente! Assim, porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.” (Apc. 3:15-16) Esse texto é interessante porque fala contra a atitude de pessoas que são mornas na  fé — ou seja, elas NÃO são frias espiritualmente — são pessoas que até mesmo gostam de Jesus, são pessoas que provavelmente incorporam elementos religiosos em suas vidas — talvez orem antes das refeições, vão à celebrações religiosas e sabem até mesmo recitar textos bíblicos. Pessoas normais. Mornas. Nem cá nem lá.

Sempre fiquei impressionada com uma história relatada em Marcos 10 de um jovem que se ajoelhou diante de Jesus, perguntando o que precisaria fazer para ter a vida eterna. O jovem declarou viver uma vida muito correta, cumprindo os mandamentos fielmente por toda a sua vida. A Bíblia declara que “Jesus olhou para ele e o amou.” Mas ao invés de facilitar as coisas, Jesus aumenta a aposta e diz: “Falta-lhe uma coisa”, disse ele. “Vá, venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me”. Diante disso o jovem ficou abatido e afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas. Em outros relatos dos evangelhos, pessoas fizeram requisitos até mesmo razoáveis a Jesus como condição para seguí-lo: “Deixa-me primeiro enterrar meu pai”, “deixe-me primeiro me despedir da minha família”… Mas Jesus não facilitou as coisas. Para Jesus aparentemente não há meias entregas — não existem comprometimentos condicionais — e se Ele é quem dizia que era, temos que prestar atenção nisso. É tudo ou nada. Quem amar sua família, sua vida, ou qualquer outra coisa, mais do que a ele — a razão de existirmos — não é digno dele. (Mat. 10:37-39)

O pastor americano Bill Hybels tem uma frase muito interessante: “Quem entrega de si 95% a Deus entrega 5% menos do que devia. Porque aventura, mistério e alegria na vida cristã só pode experimentar aquele se entrega por inteiro”. O escritor britânico C.S. Lewis argumentou da seguinte forma: “O cristianismo, se é falso, não tem nenhuma importância, e, se é verdade, tem infinita importância. O que ele não pode ser é mais ou menos importante”.  Para quem CRÊ no que Jesus dizia, o cristianismo tem que ter infinita importância. Qualquer coisa fora disso gera o tipo de cristianismo morno, doente e hipócrita que gera o mal testemunho que temos visto pelo mundo de fé cristã. Cristãos materialistas e voltados para si mesmos.

Outro dia vi alguém falar uma frase que mexeu comigo: A vida totalmente entregue à Jesus não é uma “porção extra” para pessoas que tem aspiração ou vocação para santo. Não é uma taxa cobrada só dos ambiciosos que pediram Supersize num McMenu espiritual. Não é uma opção. Para quem acredita em Jesus e no que Ele dizia é a única opção.

Não que eu seja o maior exemplo desse mundo ou que sequer esteja próxima do ideal. Sou como uma pessoa sedentária que descobriu que precisa correr uma maratona. Essa maratona é o motivo pelo qual existo, é a razão pela qual fui feita. E, como uma pessoa sedentária, estou muito longe do objetivo, mas tomando um passo de cada vez na direção certa. Como, na Bíblia, o autor da carta aos Hebreus convoca: “livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé.” (Heb. 12)

Eu admito: eu me tornei monotemática. Eu me tornei fanática. Mas só porque nunca estive tão convicta de uma coisa na minha vida.

Sempre falei nesse blog a respeito das minhas „manias da semana“. Eram obsessões pontuais por alguma série, autor, livro, tema, marca, hobbie ou ideologia que me consumiam por um breve período de tempo só para depois cair no esquecimento.

É diferente com isso, porque não estou falando aqui de um tipo de sapato confortável ou algum mistério a ser desvendado num programa de TV. Estou falando da origem e motivo das nossas vidas — do nosso futuro, propósito e eternidade. Estou falando de razão de existir, identidade e destino, do sentido da vida. Estou falando de algo que, se é verdade, afeta todas as áreas da nossa vida e todas as decisões — algo que toca em tudo — do metafísico ao material. Por isso, perdoem minha tendência a querer divulgar e convencer as pessoas a respeito de Jesus de forma muito mais apaixonada do que já fiz por Jane Austen ou Anne of Green Gables. É algo que mudou minha vida de forma muito mais intensa. Então eu só posso insistir veementemente e com lágrimas: tentem descobrir quem é Jesus, quem ele afirmava ser e, se você acreditar nele, siga-o de forma consequente.

Ainda gosto de filmes, séries, livros, música, filosofia, devaneios e romance. Posso um dia voltar a escrever sobre isso também. Mas tudo se colore por quem Ele é — o autor da criatividade, do pensamento, do universo e do amor. Ele é o requerimento mínimo. Não sou tão importante nem tão interessante assim. Não há nada que eu sozinha possa criar, inventar ou fazer que seja totalmente novo nesse mundo, que tenha algum efeito eterno. Mas se eu posso ter um pouquinho de influência no mundo que me cerca, é essa a influência que quero ter: recrutar mais pessoas que se dediquem apaixonadamente a Jesus. <3

P.s. o propósito desse post não é começar um debate religioso, é de simplesmente compartilhar uma paixão. Você tem toda a liberdade de discordar com respeito e educação.

4 de abril de 2016 Deus

  • Nossa, Mima, quando você volta é com um texto desses, pra mexer lá no fundo, no âmago mesmo do espírito. Nem sei o que dizer.
    É forte, é pungente, é maravilhoso e é necessário.
    Eu vou reler esse texto em breve. É um remédio que tem que ser tomado em mais de uma dose.

    E pra complementar o comentário, uma frase de um filme lindíssimo que eu vi semana passada e que me fez chorar de verdade, “Você acredita?” (Do You believe?”):
    “Eu perguntei se você acredita na cruz de Cristo. Veja, a cruz é manchada de sangue, dolorosa. Ela ama, perdoa e exige. Mas o que ela exige? Que a professemos neste mundo sombrio. E se você acredita, então a pergunta é:o que fará a respeito?”

    Que O Senhor Jesus continue te guardando, te abençoando, te guiando, te perdoando e te renovando.

    Mil beijinhos!

    P.S.: A gente precisa começar se falar pelo Facebook.

    • Vou dar uma olhada nesse filme, não conhecia! :) Obrigada pelo comentário, Rebeca! Como sempre, muito enriquecedor ^^ P.s. sim, por que não? :D

  • Querida Mima,

    Compreendo perfeitamente o seu fanatismo pelo criatianismo. Eu também acredito que nasci para viver para Cristo, amando as pessoas como Ele amou, e levando-as a vivenciar o reino de Deus neste mundo conturbado. E agora mais do que nunca, que já estou nos anos 60 de minha vida, sinto muito mais a urgência de passar esta verdade para os outros. Deus a abençoe!