8 de maio de 2012

Comprovado: o amor faz mal

Filmes e romances costumam demonstrar o amor como o segredo da felicidade e a razão de existir. Depois de engolir essa ideologia por muito tempo, me vi forçada a encarar os fatos. Quero expor esse impostor que atende ao nome de “amor”.

Afinal, o que o amor realmente fez por mim?

Ele não me curou das minhas inseguranças. Se qualquer coisa, colocou meus defeitos e faltas debaixo de uma lente de aumento. Porque: o que eu sou afinal em comparação à perfeição, ao sacríficio próprio, à pureza e a tudo que é belo? Vejo, diante do amor, tão claro como nunca todas aquelas falhas de caráter que me acompanharam por uma vida: o ser egoísta, egocêntrica, mesquinha, mimada, infantil, resmungona, incapaz, inconsequente, teimosa, irritada, incompleta, inconstante e infeliz.

E por isso o amor não curou minha baixa auto-estima, ele a revelou. E a minha auto-depreciação me levou à infelicidade. E a infelicidade me levou ao isolamento. O isolamento me levou à culpa. A culpa me levou à infelicidade mais profunda. E me achei aprisionada em um ciclo de auto-comiseração, mágoa e solidão. Eu não mereço o amor.

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E o que o amor me ensinou?

Que não há desculpas para as minhas escolhas erradas. Que emoções fora de controle não são justificativas para ferir a outros e muito menos para ser irresponsavel. Ele me ensinou que não aprendi nada.

O amor me disse: seja paciente e bondosa. Mas nunca fui tão impaciente e irritada quanto quando achei que o que sentia era amor.

O amor me ordenou: não busque a seus próprios interesses. Mas quando busquei amor, os meus próprios interesses eram tudo que eu tinha em vista.

O amor então revelou o que realmente faz: “tudo espero, tudo sofro, tudo suporto“. Isso é loucura. Esperar, sofrer e suportar não é exatamente o estilo de vida que uma pessoa escolheria para si.

Nos filmes, o amor impostor se apresentou em cenas românticas e lindas: beijos impacientes, poemas apaixonados e sonhos realizados. Na realidade, ele se demonstrou claramente em espetáculos grotescos e gestos despercebidos para pessoas ingratas: nas olheiras fundas de quem se preocupou, nos braços cansados daqueles que carregaram todo o peso e nas mãos perfuradas e ensagüentadas de quem sacrificou a própria vida por outras pessoas.

O amor não me fez me sentir bem comigo mesma. Ele não me deu escolhas fáceis. O amor não me fez feliz. Ele me constrangeu e me expôs, da forma que sou, assim tão errada. O amor foi um professor cruel. Ele ensinou ao ser simplesmente tão infinitamente melhor que todos.

E por causa desse amor que é tão bom, que me fez tão mal, que decidi ser melhor. Quero ser como o amor. Não parecida com o amor dos filmes, esse impostor saltitante, anestésico e com gosto de algodão-doce. Não como o amor filosófico, idealista e cheio-de-querer-ser. Quero ser como aquele amor grotesco, radical e constrangedor, que caminhou até a morte sangrenta na cruz, mesmo quando eu não o mereci. Quero ser como o amor calado, desprezado, que não se omite diante da injustiça. Esse tipo de amor, o verdadeiro, vai me fazer muito mal. Tenho que dizer adeus ao conforto, à segurança e à invulnerabilidade. Mas é esse amor incompreensível e incondicional o único amor que me aceita assim, tão errada.

E só com esse amor que tenho paz.

Se enlouquecemos, é por amor a Deus; se conservamos o juízo, é por amor a vocês. Pois o amor de Cristo nos constrange, porque estamos convencidos de que um morreu por todos. E ele morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. 2 Coríntios 5:13-15

  • Esse é uma das coisas mais impactantes que já li. Hoje em dia as pessoas se iludem ou criticam o amor, mas esse amor doente, infantil e imaturo, elas não conhecem o verdadeiro amor.Totalmente lindo esse texto.

    • Pois é. Eu mesma fui impactada pensando no amor de Deus e como é tão totalmente diferente do abuso que o mundo costuma chamar de amor, utilizando isso pra justificar tantas escolhas erradas. O amor verdadeiro é o que nos impulsiona em direção à verdade e à justiça sempre.

  • Muito obrigada pelo texto, Mima! Atingiu fundo. Lindo demais!
    Bjoks

    • Dé, obrigada :) O que eu escrevo geralmente é alguma coisa que me atingiu fundo primeiro. Beijos! =*

  • Pai e mae e “Anonimo”, voces sao suspeitos ;)
    Rebeca, eu li na adolescencia, nao lembrava mais disso ^^ que legal!

  • Eu acho que estremeci quando li o seu texto. Por que Ele não teve só que nos amar infinitamente, sofrendo e sangrando por nós, que nunca mereceremos o que nos foi dado. Ele teve que nos melhorar e teve que nos fortalecer, para suportarmos o que viria com este amor. Todos os dias. Nas nossas fraquezas Ele teve que se fazer forte. O sacrifício nunca teve fim…

    Eu lembrei muito de uma música da Colbie Caillat, “Tell him”: Deixe-me ser paciente, deixe-me ser gentil, faça-me altruísta(…) Embora eu possa sofrer, eu não vou invejar e vou suportar o que vier(…). Veja, o que sabemos não é nada comparado ao amor que nos foi mostrado quando nossas vidas foram poupadas”

    Que O senhor Jesus continue te abençoando e multiplicando seu talento.

    Beijinhos e até mais.

    P.S.: Você leu “Eu disse adeus ao namoro”, do Joshua Harris? Lembra quando ele fala que o mundo nos leva a uma tela prateada com cenas de paixão e diz ‘isso é amor’ e Deus nos leva aonde um homem nu e sangrando pendurado está e diz ‘issso é amor’? O amor inventado e o amor real…

  • Anonymous

    Amei…

    JSB

  • Muito lindo e verdadeiro o que voce escreveu.
    Estranho tambem que esse amor sofredor continua a nos atrair porque é o unico amor que vale a pena.
    O resto é imitacao barata. Esse amor custou preco de sangue e por isso é tao precioso.

  • Por isso que sou sua fan, voce escreve muitissimo bem e nem vem dizer que é porque eu sou sua mae, porque mae sabe ser sinceramente durona quando nao gosta rss. Que lindo minha escritora predileta, isso tem que ir para alem de um post que uma minoria ler, diante da quantidade de pessoas que poderiam ser abencoados com o que voce escreve. Amei! Esse amor é o que somos convidadas a viver, o amor sofredor e real. Te amo e sou grata a Deus por ter voce como filha.