5 de dezembro de 2014

Dia 20 #30diasdegratidão

Dia 20: meu cantinho do café e do chá.

Sobrevivi mais de vinte e cinco anos da minha vida, incluindo quatro anos de faculdade de jornalismo, sem nunca querer beber um gole sequer de café.

Hoje sou quase que viciada.

À noite quase que fico ansiosa pelo amanhecer, quando vou poder desfrutar minha xícara de café sem ter a preocupação de que ela vá me roubar o sono.

Postei recentemente sobre como eu era absolutamente anti-Apple e hoje sou fã da marca. Como pode uma mesma pessoa em tão pouco tempo ter opiniões tão opostas? Mesmo que sejam sobre coisas tão bobas, isso me faz refletir. Como posso confiar naquilo que defendo se não sei como me sentirei a respeito disso em alguns anos? Pensa só, eu já fui até obcecada pela série Lost.

Então vi um artigo sobre o autor Daniel Gilbert que expressou um pouco em palavras aquilo que eu estava sentindo:

O que você faria agora mesmo se soubesse que iria morrer em dez minutos? Você correria para o andar de cima e acenderia aquele Marlboro que você está escondendo na sua gaveta de meias desde 1970? Você entraria de supetão no escritório do seu chefe e apresentaria a ele uma lista detalhada de seus defeitos pessoais? Será que você dirigiria até aquela churrascaria perto do shopping e pediria aquele filé, com uma porção extra de colesterol ruim?

As coisas que fazemos quando temos a expectativa de que nossa vida continue são naturalmente diferentes das coisas que faríamos se achássemos que ela terminaria abruptamente. Nós tentamos não consumir muito bacon ou nicotina, sorrimos forçadamente ao ouvir mais uma piada sem graça do supervisor, lemos livros como esse quando poderíamos estar usando chapéus de papel e comendo docinhos de pistachio na banheira e fazemos tudo isso como um serviço de apoio à pessoa que logo nos tornaremos. Nós tratamentos nossos futuros “eu” como se fossem nossos filhos, gastando a maior parte das horas da maior parte dos dias construindo amanhãs que esperamos que vá fazê-lo felizes. Ao invés de fazer qualquer coisa que nos ocorra, nós nos responsabilizamos pelo bem-estar dos nossos “eu” futuros, poupando pequenas porções dos nossos salários a cada mês para que eles possam curtir uma aposentadoria no campo, correndo e passando fio-dental com regularidade para evitar doenças coronárias e cáries, aguentando fraldas sujas e repetições entorpeceras de “Sítio do Picapau Amarelo”, para que eles algum dia tenham netinhos gordinhos pulando em seus colos. Até mesmo gastar um dólar na loja de conveniência é um ato de caridade para garantir que a pessoa que estamos prestes a nos tornar curta o Chokito pelo qual estamos pagando agora. De fato, sempre que queremos alguma coisa–uma promoção, um casamento, um carro, um cheeseburger–nós estamos esperando que, quando conseguirmos isso, então a pessoa que tem nossas digitais daqui a um segundo, um minuto, um dia ou uma década irá curtir esse mundo que ela está herdando de nós, honrando nossos sacrifícios conforme eles colhem a partir das decisões de investimos que fizemos e a indulgência dietética.

Mas frequentemente nossa progenitura temporal é bem ingrata. Nós lutamos e suamos para dar para eles exatamente o que achamos que eles irão gostar e o que eles fazem? Largam o emprego, deixam crescer o cabelo, muda para ou de São Francisco e imaginam como que pudemos ser tão idiotas de achar que eles iam gostar disso. Nós fracassamos em conseguir as honras e as recompensas que consideramos tão cruciais para o bem-estar deles e eles acabam agradecendo a Deus que as coisas não aconteceram de acordo com nosso plano míope e equivocado. Até mesmo aquela pessoa que morderá o Chokito que compramos há alguns minutos, pode fazer uma cara azeda e nos acusar de ter comprado o lanche errado.

A solução? Não posso controlar meu eu futuro, mas posso controlar o meu presente. Posso ser mais grata pelo meu eu passado.

Então, legal que não tomei café na minha fase de crescimento. Valeu, eu passada!
Legal que eu não fiquei fã de uma marca numa época e num país onde ela era totalmente inatingível. Obrigada, eu passada!
Legal que aprendi com Lost que nenhuma série vale à pena se obrigatoriamente só faz sentido se tiver respostas excelentes no episódio final. Bem bacana da sua parte, eu passada!

Mas que eu estou muito feliz de ter mudado de opinião a respeito dessas coisas, estou ^^ #tôpassada

  • Menina, não é que essa é uma das coisas que me dá bastante o que pensar? Não a parte do café, que isso não é tema pra ficar filosofando. Mas essa coisa de haver (ou ter havido) um outro eu, no passado, diferente do eu que existe agora.

    E eu sou grata por algumas coisas que essa versão retrô de mim fez – coisas que moldaram o meu caráter e traços que eu tenho orgulho de ter. Mas há também muitas coisas pelas quais eu sou feliz de ter mudado (ou amadurecido é um termo melhor?). Sei lá, eu gosto de pensar em um esboço, aqueles traços que delimitam o desenho, mas só dão uma ideia. E no tempo passando como dar o traçado real, os contornos, a coisa mais firme, sabe? Ixi, eu tô me embolando toda aqui… Deixa eu parar. Mas é só pra você ver que é um assunto em que eu gosto de pensar.

    Beijos, Mima!
    P.S.: Férias começaram hoje! Só não saí dando uma de Elsa e cantando “Livre estou, livre estou” pelo campus por que seria muito estranho… Mas deu vontade!
    P.S. 2: Feliz aniversário atrasado! Tudo de muito bom pra você e que O Senhor continue te abençoando.
    P.S.3: Pessoas que nascem em Dezembro não são incríveis? (obs.: meu aniversário é dia 29…).