25 de agosto de 2009

Diga-me que roupas usas e te direi quem és…

“É melhor ser bonito que bom, mas é melhor ser bom do que feio” — Oscar Wilde

Há anos, venho tendo conflitos comigo mesma a respeito da importância da aparência em detrimento da essência ou como parte da essência ou definicao dela.

A moral da história, de A Bela e a Fera a Shrek, é que aparências nao significam nada.

A mensagem é meio contraditória, no entanto, porque até mesmo a Fera virou príncipe no final (e só assim a Bela o beijou, notou?) e mesmo os ogros teoricamente “grotescos” de Shrek sao figurinhas simpáticas, meros Hello Kittys pós esteróides.

Já o Lord Farquaad nunca teria seu próprio desenho. Baixinho demais. Narigudo demais. Angular demais.

Muito da nossa cultura é definida pelo cinema, o que explicaria um pouco a busca da definicao através de roupas. Quando li Orgulho e Preconceito pela primeira vez, nunca imaginei que o Mr. Darcy fosse o mocinho da história. Excesso de beleza em livros (ignore Crepúsculo), ao invés de vantagem, é motivo de desconfianca. (Provavelmente porque a maioria dos escritores sao feios. Nao ouviu isso de mim).

Que falhas de caráter se escondem por trás desta bela façade? Ah, hah! Bem como imaginei… “Mr. Darcy mostrou-se um homem orgulhoso e pedante, longe de se mostrar divertido”… Li e já detestei esse homem Darcy. Já imaginei que nao era tao bonito assim. Opa, novamente o preconceito. E novamente errada.

Já viu o filme Orgulho e Preconceito? Desafio qualquer mortal a nao sacar na primeira aparicao de Darcy que ele é o mocinho incompreendido da história. Um vilao teria um nariz maior, umas sobrancelhas mais arqueadas, um andar mais pomposo, um olhar mais dissimulado, roupas mais chamativas ou menos adequadas. Seria como o Mr. Wickham, uma coisa um tanto sem sal com um biquinho afetado. Como, afinal, nao julgar ao mundo e a nós mesmos pelo que se reflete no espelho? Veja a si mesmo na TV (ou no Youtube) e saberá quem é. Eu, por exemplo, sou a coisa um tanto sem sal com biquinho afetado. E a única forma de mudar quem sou é uma transformacao… no shopping.

Um makeover!

Provavelmente aquela maquiagem deixará meus olhos maiores, aquele blush me dará um ar saudável. Mas, é ar saudável que quero ter? E se eu deixar transparecer meu lado mártir e sofredor, ar pálido semi-gótico mas nao ao ponto de chamar a atencao? Algo leve ou algo sexy? Quero ser a heroína nao-compreendida (o que é muito cool!) ou a heroína alto-astral com lábios coral e grandes olhos?

Como saberemos quem eu sou se eu nao gastar mais do que o meu salário mensal naquela saia que é totalmente eu?!

Eu vejo a hipocrisia e a ironia em tudo isso, mas ao mesmo tempo que escrevo, estou frustrada porque nao tenho condicoes financeiras de comprar um outfit schoolgirl chic da Juicy Couture. Tanto faz também, porque nao tenho nem idade nem o tipo para usar uma roupa assim, mas, quem sabe, se eu o usasse, eu me tornaria o tipo.

Talvez se eu me tornasse tao magra quanto a Keira Knightley, eu seria clássica. Talvez conseguisse um contrato com a Chanel.

Talvez se eu usasse Chanel e fosse magra como a Keira, eu seria vista da forma como eu gostaria que eu fosse. Eu seria a Elizabeth de Piratas do Caribe e de Orgulho & Preconceito, a Cecília de Desejo & Reparacao, a Juliet de Simplesmente Amor, a Guinevere de Rei Artur… eu seria todas as mocinhas divertidas, admiráveis e dignas de amor.

Ainda estou debatendo estilos comigo mesma. Entao, que devo usar essa noite?