7 de agosto de 2013

Rebeldia contra o eu-lírico

Preste atenção. É a voz de fundo que narra sua vida. Preste atenção nela: o que lhe diz agora?

Sim, é verdade que romantiza seus dias.

É ela que numa tarde chuvosa insiste para que você se debruce melancolicamente sobre a mureta de pedra e espere. Tal qual uma bendita duma heroína. A vida não é linda? Miserável e trêmula como uma Brontë.

É a voz que descreve aquela impossível borboleta rosa-choque que dança por entre as gotas de chuva e a leva às lágrimas.

E ela que chama a atenção para a mulher dos cabelos com a mesma cor da borboleta e cujas pernas cobertas de tatuagem disparam numa bicicleta nesse instante.

É nesse momento que a voz pergunta:

— Essa é a vida real?

E no momento em que a voz pergunta isso, você sabe que já está perdida, a meio caminho e três metros de profundidade na insanidade. Vinte e um quilômetros e assim por diante dentro daquele tubo de metal barulhento e cheio de goteiras acidulentas. Você não tem controle sobre isso. A sua maca é empurrada na velocidade do desespero e todas as luzes borram no teto.

Então, o eco da risada de crianças, o cheiro da grama molhada, a lembrança de uma pluma nos lábios, o céu azulado, a beleza que dói, a doçura de arder as narinas, tudo passa como um sonho.

É o ácido escapando pelas beiradas. E você sabe que no final do túnel não há luz. Há areia movediça.

E você a deseja, ah, como anseia, pelos grãos finais a transbordar dos seus dutos respiratórios, pela última tosse, pelos brônquios cedendo, a agonia da asfixiação—você a deseja mais do que o jardim da felicidade improvável. Por que? Porque—porque finalmente silenciará a voz e poderá sentir e dizer por si só:

— Vivi a vida real.

…Sim, mas qual delas?

A Dor – tem um quê de vazio –
Não se consegue lembrar
De quando começou – ou se houve
Um tempo em que não existiu –

Não tem Futuro – para além de si mesma –
O seu Infinito contém
O seu Passado – iluminado para perceber
Novas épocas – de Dor.

Emily Dickinson, em “Poemas e Cartas”