3 de maio de 2015

Mania

Às vezes acho que Deus permitiu essa dor recorrente para que eu tenha um freio.

Porque às vezes sou bipolar desse jeito.

A euforia pela vida é quase uma mania: abraçar o mundo, não ir dormir, sorver a existência a goles generosos.

Quantas vezes já não cheguei a este ponto? A sensação de que encontrei, finalmente encontrei, encontrei a resposta para o universo. Embriagada de um deleite que nunca terá fim—o domínio sobre tudo, a soberania. Minha vida e nada capaz de me roubar isso. Eu tenho a chave.

Claro que sei, na teoria, de que isso não é verdade e que, provavelmente, dentro de alguns dias ou minutos, irei para o outro lado do espectro—enxergar apenas sombras, sofrer o peso do mundo sobre as costas. Sozinha, incapaz e fraca. Ir deitar com a sensação de fracasso e esgotamento—ser uma farsa, ignorante, a única pessoa no universo presa em si mesma, sem saída, sem recursos e sem futuro. O por quê de Deus às vezes parecer tão distante e questionar até quando serei jogada para lá e para cá pelos dados do acaso e do destino. Nauseada pela maresia da inevitabilidade. E a conclusão de que afinal não há sentido mesmo e o papel é apenas sobreviver até o dia de não sobreviver mais.

Isto tudo é depois. Mas, agora… somos um.

De ponta a ponta, consciente disso. É quase tátil. Deus aqui e o imenso universo na palma das mãos. É tudo um grão de areia: o tempo e o espaço guardados numa gaveta à nossa disposição. Tudo ao alcance—a glória, a beleza, a poesia. As contradições e as perplexidades da vida, cor e dissonância. O mistério, um tempero. Tudo em seu lugar. Causa e consequência, origem e destino. A velocidade, a calmaria, é uma dança, é tempestade, é um milagre, é maravilha. E a grandeza destes sentimentos me faz crescer dentro de mim mesma: forte e terrível como Galadriel, o Precioso em minhas mãos, ou a ilusão de ser detentora da mais gloriosa perspectiva e vontade.

Aí minhas costas me beliscam e acordo. O constante e inevitável lembrete da minha mortalidade, o meu espinho na carne, o termômetro da minha pequenez. Aí, dentro de mim mesma, volto a ser humana, limitada e dependente. Só sou mais uma.

E está tudo bem assim mesmo.

  • Acho que eu tenho um pouquinho disso, mas não tanto. Fico mais na linha mediana… Não consigo sentir essa sensação de euforia tão… eufórica (ai, me fugiu a palavra), nem esse outro lado da moeda.

    Não sei, acho que tenho que ler esse texto em outro momento da vida… Tô com a sensação de que ele tá tentando me dizer alguma coisa a mais, mas eu não tô pegando…

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    Adorei o novo layout! Gostava bastante do outro, mas esse aqui tá bem legal também – e dá pra ver o que você tá lendo com a widget do Goodreads (eu tenho Skoob, que é o Goodreads brasileiro).

    Em janeiro eu finalmente li “Anne de Green Gables”. Nem tenho como dizer como foi. Foi tão tão tão, que eu nem… Foi lindo demais. Primeira vez que eu chorei com um livro nas partes não-tristes também.

    Agora eu quero ler todas as continuações. Uma editora brasileira lançou uma outra tradução esse ano – agora são duas no Brasil – e prometeu traduzir todos (eu devia ler em inglês, que aliás é a minha graduação, mas eu sou meio preguiçosa).

    Aliás, tem como você fazer um post novo sobre a Anne? Leitora abusada, eu sei.

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    Beijos, Mima!

    • Vou tentar reler Anne de Green Gables para ver se me inspiro a fazer um novo post. Tem um VLOG antigo que falei um pouquinho a respeito dela :) Pode continuar sendo uma “leitora abusada”, porque adoro sugestões. E você não precisa se identificar com todos os meus textos, apesar de eu apreciar o esforço. ;)) Às vezes uso o blog mais como um diário do que como um meio de comunicação.