21 de julho de 2012

Mas qual é o sentido da vida, Stacie?

Tamborilando os dedos na mesa de computador no meu quarto. Olhando para o furo na perna do moletom cinza da sexta série que ainda me serve. (O passado parece que meio que tem mesmo um tom de amarelo.) No moletom, o símbolo bordado do Colégio Batista com a inscrição em latim Veritas Vincit, “a verdade vence”. A voz da minha mãe ao telefone na sala de estar, um irmão ouvindo em loop uma música chata do Toby Mac, o som de trânsito invadindo pela janela. E eu, com o rosto cheio de espinhas refletido na tela do computador, tentando afogar tudo com os fones de ouvidos de camelô, o volume ao máximo, buscando a verdade entre música pop e punk rock. 

A trilha da vez é Stacie Orrico, com sua voz semi-anasalada melodiosa, choramingando que “deve haver algo mais na vida“. Ela, infelizmente, não diz o quê. Mas, consegue minha atenção.

Escuto-a com um certo fervor. Repito a música, digamos que obsessivamente. Baixo o vídeo em um programa azul P2P, salvador da pátria na minha geração pré-Youtube. Observo enquanto a Stacie muda no clipe de cores de cabelo e profissões, situações financeiras e rotinas. Tantos papéis na vida, tantas opções e, de todas as formas, ainda clama: deve haver algo mais na vida. Mas, o quê, Stacie? Deve haver no vídeo alguma dica, um simbolismo disfarçado, algo muito profundo que ainda não captei. Deve haver respostas e não só perguntas. Decoro a letra da música, analiso-a palavra por palavra e nada. Deve haver algo mais na vida. Algo mais do que sair à caça de uma nova emoção temporária para me satisfazer. Deve haver algo mais do que apenas querer mais. Mas, o quê, mulher???

Essa é uma pergunta que me acompanha por toda a adolescência. Na varanda, respirando profundamente o ar noturno oleoso e pesado do verão de Santos, lamentando que as luzes da cidade tornam o céu alaranjado e acobertam as estrelas que emoldurariam tão lindamente minha melancolia e questionamento. Quando me alimento, logo tenho fome. Se bebo, logo tenho sede. Se durmo, logo canso. E até mesmo se me divirto, logo me entedio. Tudo que já desejei e conquistei só me trouxe alegria por tão pouco tempo. A vida é realmente só uma luta para tentar satisfazer aos meus insistentes desejos?

Talvez o problema seja o Brasil? Deus, não há lugar para imaginação aqui. Não há sequer estrelas no céu noturno. Preciso ir dormir todas as noites ouvindo o hino do Santos entoado por aquela padaria farofeira ou pagode dos bares ao lado. Que inferno! Carros e bêbados sem-noção nessa avenida feia e suja. Se eu morasse em outro país…

Ou será a solidão? Se eu encontrasse alguém que me valorizasse ao máximo, me enxergasse como alguém valiosa e especial, me amasse assim do jeito que sou. . . Estaria feliz para todo o sempre, não?

Então alterno entre o desânimo hedonista – me emporcalhando com a satisfação de cada necessidade minha, obediente aos meus caprichos, tentando tapar um buraco que só parece cada vez maior – e o rigor asquético (que eu sequer conhecia por esse nome) – disciplina, meditação, busca pela pureza, auto-negação, controle, jejum, sofrimento, auto-flagelação (também conhecida como ouvir incessantemente Ana Paula Valadão).

Filosofo por um instante que a insatisfação é necessária para a vida. Pessoas satisfeitas não realizam nada, não é verdade? Precisamos ser infelizes para sentirmo-nos motivados a realizar algo pela humanidade e por nós mesmos.

Stacie, por que não me disse logo o sentido da vida?

stacie

Sim, eu sei que vende muito mais discos lançar uma pergunta e nunca respondê-la. Mas eu não precisava que você simplesmente repetisse aquilo que já estava dentro de mim.

E, agora, aqui me encontro. Não moro mais no Brasil e tenho alguém que me valoriza de verdade. E, ainda assim, tem momentos que, se me esqueço do tal “algo mais na vida”, me perco nos mesmos pensamentos viciosos da adolescência. O céu agora tem estrelas. Mas, foi justamente no momento que percebi que podia vê-las e, mesmo assim, senti tristeza, que experimentei a mais profunda falta de esperança. Posso ter tudo no mundo e meu coração continuará faminto e sedento, clamando pelo “algo mais”.

O algo mais.

Jesus apontou para a água do poço e disse para aquela mulher: “Quem beber desta água terá sede outra vez”. Eu, malcriada, responderia: “Obrigada pela dica, Capitão Óbvio”. Conheço muito bem a sensação de voltar a ter sede.

Mas, ao contrário da Stacie, ele prosseguiu e ofereceu de fato uma resposta: “Mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna”.

Enquanto me aproximo mais e mais dele, sinto essa água fluir dentro de mim. Com os olhos nele, não importa quão seco esteja tudo ao meu redor, não tenho sede. Tenho alegria verdadeira e profunda, borbulhando dentro de mim, formigando, como o andar nas nuvens do início de uma paixão.

E descobri que não preciso da insatisfação para me incentivar a mudar. Descobri um elemento de motivação muito mais efetivo e natural: o amor. Não me canso de dizer: o amor dele nos constrange… a amar mais.

Água viva e amor de Deus, Stacinha. Acho que é esse o sentido da vida. O algo mais.