20 de setembro de 2012

Não tenho palavras…

A dor da criança que cresceu frequentando a igreja desde bebê é ter o vocabulário de João Ferreira de Almeida na ponta da língua, pronunciando sem querer verbetes como “ignomínia”, “opróbrio” e “escarnecedores”, enquanto os outros da mesma idade ainda estão gaguejando “pudim de leite”. Que rubores me acometiam quando percebia que dissera alguma coisa imprópria para menores de 12 anos, algo como “a origem da concupiscência”, “motivo para júbilo” e “raças de víbora”.

Deveras! Daí talvez o meu asco por palavras em desuso ou incomuns na boca do povo. Sim, às vezes, ainda quero espremer o dicionário pela palavra exata que expressa tão sucintamente o que, doutra forma, teria que escrever parágrafos inteiros para explicar. Mas, outras vezes, lembro o que a faculdade de jornalismo me ensinou logo nas primeiras lições: devo escrever de forma que a minha mãe (ou melhor, que a mãe do professor Gerson) entenda. Aí sinto vontade de jogar o dicionário fora (o que, de fato, acho que acidentalmente fiz, já que não tenho nenhum de português aqui em casa). É que nasci com a boca da minha mãe, o que significa que, exceto pelos raros regionalismos semi-extintos que ela propele vez por outra, o que sai da minha mente e coração já está traduzido para o idioma dela. O que me leva a pensar que o jornalismo é, portanto, a morte do dicionário.

Nada contra. Não vou fazer nem minuto de silêncio, pois nunca simpatizei com o sujeito (nem com o predicado!).

Mas, aí me pergunto de novo: a morte do dicionário não é, de forma lenta, dolorosa e cruel, a morte do português também?

 

Deus é minha testemunha que o meu crescente desentendimento com as excentricidades gramaticais e ortográficas do nosso idioma, assim como o lapso ocasional de uma palavra ou outra, não é esnobismo de quem mora no exterior, mas, sim, pura ferrugem mesmo. Quase não tenho livros em português. Por quê? Porque o português é o idioma mais precioso do mundo. Livros em português custam mais caro do que em qualquer outro idioma. Então, prefiro ler em inglês ou em alemão mesmo, thankyouverymuch. Questão de economia doméstica. A Katniss aprovaria. Daí é culpa minha que tudo que leio em português agora é a página online do Estadão? (OK, mentira. Leio também blogs de literatura etc. E quase sempre minha reflexão a respeito dos textos é: “Poxa, um dia eu soube o que essa palavra significa!”)

Já passei há muito tempo da fase de ser uma nazista gramatical (do tipo que solta: “Hahaha! Escreveu pesquisa com Z, que burro, zero nele! Seu argumento é inválido, analfabeto!”) e entrei na fase de implorar para a minha cunhada verificar os erros mais grotescos da minha redação. Caminho em um campo de tensão entre maturação da graciosidade e reconhecimento da própria incompetência. Certamente Jane Austen não estava tão preocupada com a ortografia enquanto escrevia (afinal, havia acordo ortográfico na Inglaterra naquela época?). Shakespeare celebremente inventava as próprias palavras quando não encontrava uma que lhe agradasse. Eu mesma sou uma grande adepta dos neologismos e adaptações semânticas para minha própria conveniência. Estou ciente de que nenhuma língua é estática e apoio o desenvolvimento do idioma (contanto que eu não tenha que aprender novas regras #novoacordoortografico). Mas desenvolvimento do idioma significa necessariamente emburrecimento do idioma?

Parece que sim. Pelas minhas observações amadoras, quanto mais um idioma se “desenvolve”, mais simples ele se torna (vide o super cool inglês em relação ao retrógrado alemão).

Só tenho medo, muito medo, do que vai acontecer com a comunicação se esse desenvolvimento prosseguir.

E quando não existirem mais palavras suficientes para expressar o que realmente queremos dizer só porque as esquecemos? (Se é que ainda existem.)

Vamos nos expressar apenas através de emoticons*? (>.< que medo… :( )

Por mais romântico (…not) que pareça ser viver no mundo de “Mim, Tarzan, tu, Jane”, a versão original de Edgar Rice Burroughs mostra um Tarzan culto, que aprendeu a falar, ler e escrever inglês sozinho, lendo livros abandonados na selva. O idioma e a aptidão de se expressar através dele até mesmo parece um pré-requisito para a capacidade de ser civilizado e internalizar valores humanos de compaixão e sociedade. Diga-me que palavras sabes e te direi quem és.

Confesso que desde o novo acordo ortográfico me sinto sob uma espécie de ditadura que exclui arbitrariamente acentos e hífens de palavras que eu até gostava. Tem idéia, opa, ideia do que é fazer isso do dia para a noite, sem motivo lógico e aparente? Então, não estou falando da preservação xiita do português, mas da preservação da comunicação.

Quero palavras que dançam nos meus lábios, que rolam o significado para fora com o prazer de um tobogã, palavras que, como “duas colheres de açúcar, fazem o remédio descer” (Mary Poppins). Quero voltar a entender Os Lusíadas, caramba!

Mas, que empino o nariz para blogueiro que usa a palavra “deletério”, empino. (Porque tive que abrir o dicionário.)

Mas, que quero mais do que “gá-gá du-du” para as minhas crianças, eu quero. (Quando elas tiverem idade suficiente para falar, claro.)

Não posso culpar o jornalismo pela nossa preguiça intelectual, mas que posso acusá-lo de ser indulgente e de mimar excessivamente o leitor, eu posso. Posso culpar o governo pela falta de investimentos na educação. Posso culpar a literatura “clássica” asquerosa e semi-pornográfica enfiada goela abaixo dos adolescentes por amor do vestibular, assegurando com quase total garantia que eles nunca mais vão querer ler livros na vida. Posso culpar o Lula (é sempre legal culpar o Lula). Posso culpar a internet e a velocidade e os SMS e isso e aquilo.

Mas, convenhamos, em época de Google e Smartphones, existem dicionários online suficientes para não termos desculpas (ou para termos a quem culpar).

Então de quem é a culpa?

Nossa. Burrice nossa. Estupidez nossa. Preguiça nossa. Se a gente não se entende, a culpa é nossa.

Resolução do novo ano? Aprender uma palavra nova por dia. Fácil? Não é. Mas seria deletério para o nosso idioma não fazê-lo. Usei certo? Não, espero que tenha ‘empregado corretamente’.

[grey_box]Qual a palavra pouco utilizada hoje em dia que você acha mais bonita? Você é a favor da reciclagem de palavras esquecidas?[/grey_box]

* Por falar nisso, parabéns aos emoticons por seus 30 anos de existência. Adoro, uso e recomendo! ;-)