3 de setembro de 2012

O anonimato

Na barra da saia daquela grande cidade havia um vilarejo e, no vilarejo, um milharal, e, por trás do milharal, um campo de macieiras e, junto ao campo de macieiras, brincando e dançando furtivamente por trás de um denso matagal, um riacho. O sol inclemente parecia ter uma predileção especial por toda a região, esparramando-se num clarão branco sobre as silhuetas secas. O riacho, no entanto, era imune ao ardoroso castigo, como um ex-amante amargurado que não mais se ressente das ofensas de uma paixão antiga. Debaixo do sol, os campos gemiam, mas o riacho simplesmente brilhava em milhares de pontinhos de diamante.

Não havia nada de mágico e especial a respeito desse riacho em questão, a não ser a característica comum a todos os riachos, que, enquanto correm, o tempo parece ceder graciosamente sua função. Mas, este riacho em particular, além do tempo, apenas mais uma personagem se atrevia a desbravar as matas para visitar.

Todo verão, todos os dias, ela corria e quedava-se na margem, observando a ondulação gelada em seus pés, na parte rasa e cristalina, salpicada de confetes de pedregulhos e folhinhas flutuando apressadas, curiosas, um tanto desorientadas, como turistas na hora do rush em São Paulo. Mas, ali não havia o ruído de São Paulo, nem o concreto de São Paulo, nem a dureza de São Paulo, nem mesmo os aromas de São Paulo. No entanto, ou, até mesmo portanto, correndo como o riacho, refrescante como o riacho e tão furtiva e escondidinha quanto ele, estava a paz. Paz daquele tipo que faz o próprio tempo se atrasar por só mais um golinho.

Ali nossa personagem se banhou de paz e bebeu paz e chorou paz. Ali ela permaneceu, ao mesmo tempo menina, ao mesmo tempo uma metamorfose, ao mesmo tempo mulher vivida, ao mesmo tempo uma grande cicatriz viva no meio do mundo de caos. A floresta, por sua vez, parecia ter um longo fôlego, segurando a respiração o tempo inteiro em que aguardava quietinha, mas às vezes parecia que ela mesma festejava na única forma que podia, com uma centena de ruídos, estalos, zumbidos, farfalhares e cantos agudos. O ritual anual era só para ela e ela só para a paz.

Pouco tempo depois que elas se foram, a personagem e a paz, o riacho finalmente também secou. Dele só restaram húmus e pedregulhos.

Ninguém estava lá para testemunhar esta mudança.

Se um riacho nasce, corre e seca no meio da floresta, mas ninguém viu, ele realmente existiu?