12 de setembro de 2014

O clamor eterno

Embrulhei meu sonho num papel de seda
Depositei-o em um baú vedado
Escondi-o em uma gaveta
E tranquei-o com cuidado

Mas madrugava e a madeira tremia
E, de dentro da estante, a fera gemia:
– É possível, é possível!
Quero ser realizado!

Embrulhei o baú com linho puro
Depositei-o numa jangada
Enviei-o ao mar profundo
Para não ser mais tentada

Mas, numa ressaca brava, retornou o sonho tossindo
E um choro abafado escapou do linho fino:
– É possível, é possível!
Não quero ser abandonado.

Desembrulhei meu sonho do pacote
E ele sorriu com lágrimas pra mim
Desejei a ele paz e morte
E enterrei-o no jardim

Mas, do meio da terra batida,
Brotou um estranho pé
Florindo a mil por um sonhos risonhos
E perfumando-nos com nova fé

Porque não há morte que seja o fim
E não há sacrifício que não gere fruto
Amor, por você desisti de tudo
Mas tudo não desistiu de mim

Porque para nós não há fim aparente
Que não seja para o futuro uma semente:
— É possível — clama o eterno
— Ainda é tudo possível!