10 de fevereiro de 2013

O direito de todos

O patrão da minha tia era um homem interessante. “Todo mundo, alguma vez na vida, é um poeta, um filósofo e um escritor, vai por mim”, dizia. Tinha um jeito de pensar diferente, é verdade. Morreu cedo, coitado. Mas, deixou essa impressão em mim.

Eu gostava da ideia de ser qualquer um desses. Parecia uma coisa tão pomposa, privilégio de gente rica—e, de repente, estava bem ali, ao nosso alcance: o dom da criação.

O que era tão fantástico nisso é que nenhum de nós lá em casa sabíamos ler ou escrever. Nem ao menos minha tia, que trabalhava de empregada doméstica na casa do seu Burla.
Muitas vezes ele me deixou ficar por lá, penduradinho na barra da saia dela, enquanto ela colocava a casa dele em ordem. Ou, ao menos, na ordem digna de cento e vinte reais ao mês. Não sei se era o tanto que ela merecia ou tudo que ele tinha para dar, mas sei que o que não pagava em dinheiro, pagava em lições. Para ela e para mim.

E foi aí que aprendi tudo o que eu podia ser. E foi isso tudo o que me tornei.

Mas, como era ser escritor para nós que ainda não sabíamos escrever?

Mágico.

“É só você desenhar histórias e teorias a respeito da vida dentro da sua mente”, ele me explicou. “Os seus sentimentos podem ser o lápis e o alcance da sua imaginação, o dicionário”.

Inventei palavras, criei mundos e alfabetos próprios. E foi assim que me tornei um escritor, um filósofo e um dos melhores poetas que já existiram. Além de rei, escravo, astronauta e artesão. Tudo isso, sem sair da barra da saia da minha tia.

Quando cresci, a vontade para aprender a escrever de verdade só foi crescendo. Mas, o pobre seu Burla não tinha tanto tempo. E, como eu já disse, morreu antes de ter.

Hoje em dia, tenho um pouco de vergonha de mostrar o que escrevo para os outros. Porque eu ia lá todo admirado com os contos da minha mente manifestos no papel e já vinham os guardiões da gramática, filhinhos de papai que nunca lutaram para adquirir conhecimento, apontar que casa não é com z e você não tem cedilha. Não tem nem importância se o seu coração tá ali esparramado bem bonitinho—a lei da letra fala mais alto. E você é barrado pelos guardiões, bem ali, nos portões de entrada da literatura realmente lida.

Quando isso acontecia, eu não xingava, não reclamava. Saía de mansinho, agradecendo pela lição. Os guardiões são muitos e eu sou… poucos.

Só cá comigo, olhando para os meus papéis embolorados no fundo da gaveta, tento entender os tais dos guardiões.

Por que a lei é mais válida que a imaginação?

Eles tão é com medo de que a língua se perca?

E o que vai acontecer com a minha língua se eu não a usar? E o que acontece com a língua de todo mundo que foi barrado?

Na minha mente, a palavra é democrática. Ela sabe que é eterna, embora mude de formato a cada novo mandato e por isso conclama a todo o povo que apenas a use incessantemente, em qualquer formato que puder. Apenas use a palavra. E ela se tornará sua.

Sobre este texto

O direito de todos foi escrito naqueles tempos mais simples (ou seja, há algumas semanas), quando ler e escrever eram as coisas que mais ocupavam minha mente. Aliás, além desse texto, toda essa nova versão do blog foi feita para ser lançada semanas atrás. Os mais atentos e mais próximos sabem que as circunstâncias mudaram drasticamente e, com isso, minhas prioridades e vontades. De qualquer forma, acho que O direito de todos não deixa de ser um cutucão apropriado. Fica a pergunta: apropriado para quê?

  • existe tanto a ser dito, coisas incríveis de quem menos esperamos. Dê a eles uma voz e você irá se surpreender. Pena que os grilhões do correto inibem alguns de se expressarem. Empreste a eles seus ouvidos, pois no fundo é o que todos querem.

    • É, eu também sinto falta de ouvidos. Imagina quem teve menos oportunidade.

  • Mima, Mima, Mima, que texto lindo é esse? que amontoado de palavras escolhidas a dedo é essa “masterpiece”? Eu amei tudo nesse texto, é tão maravilhosamente perfeito. O sentido dele, ah, você é poética demais. Amei, amei, amei. Continue assim sua linda :)

    • Obrigada, Edson :) Fico bem feliz que gostou ^^