25 de março de 2014

O pretérito do futuro

Eles dançam sem música, os pés mal se movem. Estão tão próximos e apertados nos abraços mútuos que mal podem respirar.

— Você lembra quando dançamos na escuridão? — ela sussurra, os olhos úmidos sondando seu rosto. Só a lua cheia clareia cinzenta a varanda. Os mosquitos zombem, as cigarras cantam. Uma brisa sopra sobre o suor que escorre de suas costas.

Ele ergue as sombrancelhas, os olhos indecifráveis na penumbra, mas não diz nada. Ela desliza as pontas dos dedos sobre o pescoço dele e prossegue:

— Lembra de como éramos jovens? — suspira, lançando o rosto para trás e contemplando o céu salpicado de estrelas. — Ainda não tínhamos filhos, nem tantas preocupações. Tão inexperientes e assustados! Apenas um casal apaixonado, cheio de sonhos e planos—

Ele a segura pela mão e a faz rodopiar na ponta dos pés. Ela perde o equilíbrio e cai em seus braços com uma risada embriagada, solta:

— Lembra? Como você me fez rodopiar e eu quase caí no chão? Que medo, eu podia até ter morrido naquele dia!

Ele sorri e a abraça mais forte, enquanto acaricia seus cabelos.

— Lembra? — ela pisca, encolhendo o sorriso, e uma única lágrima cai sobre sua bochecha. — Você lembra de como dançávamos sem música nas noites de verão? Naquela casa velha, nosso primeiro lar? Lembra de como nos amávamos? De como éramos felizes?

Ele passa os dedos sob seus olhos, afastando a única lágrima. Depois os beija e responde:

— Lembro como se fosse hoje.

E eles riem com olhos sem rugas, bocas cheias de dente e espíritos carregados de juventude. Com passos ágeis entram pela porta de vidro para reviverem o amor que nunca antes viveram. Como será, não sabem ainda — mas já sentem saudades.