16 de outubro de 2013

O sapatinho de cristal

Tudo com que sonhei, eu tenho. Tudo pelo que lutei.

Todos falam ao mesmo tempo. A banda soa desafinada na cacofonia da festa. Os servos passam, oferecem vinho, frutas frescas, petit gateau. A cera das velas já está pela metade derretida. A parentada gargalha, aplaude, se comove e dança semiembriagada. E o meu príncipe, de peito inflado, me estende a mão. Eu sou aquela que desfila, aquela que suspira, aquela que pisca os olhinhos maquiados e se deixa admirar. Eu sou aquela que coube no sapatinho de cristal.

E o que mais quero, neste momento, é morrer.

Ele ousa olhar em meus olhos e se dizer apaixonado. Mas, eu sou só aquela que coube no sapatinho de cristal.
Ele escreve poemas, compõe serenatas e me oferece o mundo. Eu sou só aquela que coube no sapatinho de cristal.
Para os amigos, para a família, sou um grande motivo de orgulho. Eu sou só aquela que coube no sapatinho de cristal.

E até hoje me pergunto: e se não?

E se meu pé fosse um tanto maior ou menor? E se eu não fosse capaz de espremê-lo e suportar a dor? Se eu não fosse capaz de fingir tão bem o conforto e agir como a princesa esperada? E se vissem além do meu disfarce?

É, a fada-madrinha bem que sempre me disse:
— Cuidado, querida, para não tentar caber num sapatinho que não lhe pertence.

Mas, tudo que precisei foi de um pouco de esforço. A tal da Cinderela, acho que até morreu de desgosto. A mulher para a qual ele jurou a alma, totalmente esquecida. E eu? Aqui, bebericando champanhe no trono que seria dela. Apenas suporte a dor. Seja a mulher que ele sempre desejou. Uma única prova. E ele nem sequer me perguntou.

— É ela! — os soldados anunciaram com as trombetas, a corte celebrou. Meus dedos se deslocaram das juntas e fingi que as lágrimas eram de emoção. Eu caberia nesse sapato nem que me custasse a vida.

E hoje ele reclama que sou muito ranzinza, tenho um temperamento difícil. Explodo por qualquer detalhe e choro sem nenhum motivo. Desprezo as mulheres que me cercam e humilho os que me admiram. É que ninguém, ninguém, sabe do meu sacríficio. Ninguém sabe que, em segredo, gemo e grito e a todo tempo cogito desistir.

Não, ninguém nunca me amou. Não a mim de verdade.

Eu sou só aquela que coube no sapatinho de cristal.