19 de abril de 2016

O único romance que importa

No sábado passado comecei a contar a um grupo de amigos uma história. Dentro daquele contexto não era possível dar muitos detalhes, então resolvi que precisava escrever a respeito dela. É uma história que vale a pena.

Bem, não sei do início de tudo. O que sei é que Laís cresceu nas ruas do centro de Santos sem nunca ter realmente conhecido os próprios pais. A única figura paterna que conhecia era o “tio” que ninguém sabia se era realmente seu tio, mas que, de certa forma, se responsabilizava por ela. E com “se responsabilizar” quero dizer que era ele o que fornecia produtos para a garota vender todo dia no semáforo. Frequentemente saía de casa antes do amanhecer e só voltava quando os postes começavam a iluminar. O dinheiro das vendas naturalmente ia para o adulto. Nos dias bons, recebia além de alguma coisinha para comer, uns trocados extras. Nos dias ruins, apenas abuso verbal e físico.

Conforme Laís foi crescendo, não demorou para se dar conta que poderia, de outras formas, ganhar mais do que os trocados extras dados pelo tio. A jovem queria liberdade, queria conhecer o mundo. Só que entendeu que apenas vendendo quinquilharias no semáforo para o tio nunca teria isso. Foi exatamente com esse argumento que um dos primos apresentou a ela o mundo da prostituição. Uma transição quase que natural. Laís faria qualquer coisa. Daí para o mundo das drogas foi apenas um passo. Não que ela quisesse vida fácil. Pelo contrário. Durante o dia, debaixo do sol escaldante, ainda vendia, muitas vezes zonza de sono e de ressaca, alguns produtos no semáforo. Mas, à noite, ia aos lobos na praça, mal se dando conta do que acontecia consigo durante os transes. Era quase como se tivesse nascido para correr na autobahn da destruição.

Até o dia em que Deus interviu da forma mais inesperada.

Era um dia particularmente quente de fevereiro, uma quarta-feira oleosa e pesada. O sol já estava alto, mas Laís lembra que sentia como se ainda estivesse viajando. O estupor não costumava durar além da madrugada, mas talvez dessa vez tivesse abusado da dose. Acordou na base de uma árvore da praça, de cara para uma catedral. Gemendo, justificou para si mesma que tinha sido uma noite particularmente difícil, então ela merecia o exagero. Eram só flashes agora. A face apertada entre os dedos de uma mão gorda e áspera. Uma dor na mandíbula vindo à tona junto com a lembrança. Sacudiu o rosto para se desvencilhar dela. Colocou-se de joelhos no chão, chutou as sandalhas de salto e saiu cambaleando nas pontas dos pés, descalça, em direção à Avenida Senador Feijó. Todas as palavras que eles falaram se misturavam juntas num zumbido sem sentido na memória. Só se destacavam uma ou outra risada, um ou outro grito mais alto, com um brilho de vermelho e a sensação da colisão com um trem nos tímpanos. Alguém puxou seu cabelo com bastante força essa noite, bem rente à nuca, relembrou, sentindo a guinada no pescoço. Olhou para o céu azul, sem vestígio de nuvens, e sentiu a língua se apegando ao céu da boca, uma secura que arranhava na garganta toda vez que engolia a saliva. Passou as mãos no cabelo, tentando reparar as aparências. Então lembrou de uma coisa e retornou para a árvore. Pegou uma sacola jogada entre as raízes que destruíam o concreto e tirou de dentro dela um par de rasteirinhas de couro gasto e um vestido azul desbotado estampado com pequenas margaridas. Trocou-se rapidamente, o tempo todo sondando com os olhos se alguém se aproximava. Então seguiu percurso. Precisava andar, precisava continuar a vida, não deveria pensar muito. Queria dormir, nada mais que dormir. Mas o tio já devia estar ficando louco.

Atravessou estalando as sandalhas no chão de asfalto e foi até a esquina da Amador Bueno, onde esperava encontrar o tio chutando a mureta de raiva. Ao lado dele estaria um isopor que Laís sabia que estaria repleto de chicletes, balas e algumas garrafas de água mineral. Foi arrastando as sandalhas, sentindo o calor já ameaçando causar-lhe bolhas. Quando chegou na esquina costumeira, percebeu que o tio não estava em nenhum lugar à vista, mas o isopor sim, largado ao lado de um poste. “Graças a Deus”, suspirou. O tio certamente não estava muito longe dali, mas ela saberia aproveitar os minutos a mais de paz.

O semáforo sinalizou vermelho, então era aquela a hora de agir. Laís descalçou os pés novamente e, ansiosa para compensar o atraso, puxou a alça do isopor com um braço só e correu para o meio da avenida.

A van simplesmente não parou.

Alguém gritou, um freio guinchou. Meia dúzia de pessoas ao celular, murmúrios alarmados, o sol a pino, o gosto de sangue, concreto e areia. É engraçado que não importava em que região de Santos você estivesse — a areia da praia te seguia. Depois só silêncio e escuridão. Inconsciente e sem identificação, foi levada.

Foi justamente no hospital que Peter a encontrou pela primeira vez.

Ele era o que chamaríamos do típico gringo: alto, loiro, olhos claros, rosto avermelhado pelo calor e pelo sol, curtia usar camisetas coloridas, bermudas de surfista e chapéu até mesmo em ambientes mais requintados. No entanto, logo que chegou no Brasil percebeu que por onde passava os olhos dos transeuntes o acompanhavam. Por isso começou a tentar se disfarçar de brasileiro. Mesmo naquele calor escaldante, procurava usar uma calça jeans escura, camisa pólo e tênis esportivo. Só quando fazia a ronda no hospital fazia questão de usar um jaleco verde-claro que comprou com dinheiro do próprio bolso, embora fosse desnecessário por seu trabalho por lá ser mais parecido com o trabalho de um zelador ou faxineiro do que com o de um enfermeiro. Mas comprou o uniforme com gosto, gostava de fazer o serviço, qualquer que fosse, de forma bem-feita.

Foi por acaso que acabou conhecendo Laís.

Era uma quarta-feira, dia em que costumava sair mais cedo do hospital para ir jogar bola com uns meninos na praia. Já estava de saída, terminando de puxar o jaleco suado do corpo para enfiar na mochila, quando de repente surgiu no corredor a maca arrastada por dois enfermeiros apressados e muito barulhentos. Uma das rodinhas estava meio solta e, por isso, balançava e guinchava à medida que os enfermeiros a forçavam adiante. Foi isso que chamou a atenção do rapaz logo de cara e, quando virou instintivamente na direção do ruído, só enxergou passando o borrão de um fino braço bronzeado a pender para fora da cama e um pedaço de vestido florido ensanguentado.

Normalmente Peter prosseguiria seu caminho. Pessoas inconscientes não eram algo incomum por lá. Mas, dessa vez, algo o incomodou mais do que o normal. Sem pensar a respeito, colocou o jaleco de volta e correu atrás da maca e dos enfermeiros.

A maca ficou ali, largada no final do corredor, enquanto—Peter já conhecia tudo aquilo, mas não deixava de se chocar—os enfermeiros gastavam aqueles minutos preciosos e críticos lidando com formalidades, procedimentos e a infindável fila de espera.

Peter se aproximou devagar para examinar a situação em que se encontrava. Os cabelos longos da jovem estavam espalhados em mil direções, parte cobrindo metade de seu rosto e o couro cabeludo empapado de sangue e areia no outro lado. O vestido florido apresentava uma fenda horizontal e reta na altura do tronco, como se tivesse sido transpassado por uma faca. Mais sangue e terra nos cotovelos. Na parte da frente dos braços havia algumas marcas de agulha. Também nas mãos. Olhou para suas pernas e a visão era de causar náuseas. A fíbula e a tíbia esquerda estavam muito torcidas em relação ao fêmur, num ângulo humanamente impossível. Com certeza teria que ser operada, mas nem isso seria garantia de que poderia andar novamente. Onde quer que a pele bronzeada estivesse exposta, manchas roxas começavam a surgir. Menos nos lábios. Os lábios estavam acinzentados e secos, como se já estivesse morta. Estava tão imóvel, era mal perceptível se respirava.

Peter alisou para trás com os mãos o cabelo molhado de suor. Um sentimento inexplicável se moveu dentro do coração dele diante dessa cena. Era só mais um infortúnio. Ele não tinha nada a ver com isso. Só mais uma morte que poderia ter sido evitada. . . Como sempre. A fila de espera interminável. A falta de recursos e médicos. Enxugou o suor dos olhos com as costas da mão. Quantas vezes mais vivenciaria isso?

Repentinamente deu meia-volta e, com passos firmes, caminhou para o outro lado do corredor, onde sabia que em um pequeno quarto podia encontrar um balde, uma torneira e toalhas limpas. Era tudo que poderia fazer no momento. Rapidamente girou a alavanca da torneira e encheu o balde com água quente diretamente da caixa. Pegou duas toalhinhas e voltou para onde a moça estava. Enfiou uma das toalhinhas enrolada no bolso do jaleco e jogou a outra no balde. Torceu a toalha no punho de uma mão só e, com cuidado, começou a limpar suas feridas.

Hang in there. Aguenta aí. — sussurrou para a jovem inconsciente, enquanto dava pancadinhas delicadas com a toalha úmida na região ensanguentada do coro cabeludo.

— Ei, gringo! — ouviu. Virou e deu de cara com um dos enfermeiros. Tinha uma máscara de proteção branco-amarelada amarrada no pescoço, o tom combinando com a cor do uniforme. — Quer ajudar? Então vamos empurrar essa porcaria. — disse, enquanto caminhou a passos rápidos para perto de rapaz e já puxando para si uma haste de metal da maca. Manobrou e Peter, sem palavras, se colocou ao lado dele e fez força para começar a empurrar.

O enfermeiro olhou com o canto dos olhos para o jovem e riu, debochado, enquanto lutavam para manter a maca bamba no percurso do corredor.

— Essa daí tá com a morte estampada na testa já. Nem esquenta.

Peter inspirou fundo, o rosto e as orelhas queimando de forma irregular. Sabia que não adiantaria expressar a indignação, a revolta, a náusea, a frustração. Sabia que seriam apenas platitudes para pessoas que já se habituaram com o inconformável e limitavam o valor de vidas humanas à própria mesquinhez e letargia. Ele era o “gringo”, afinal, e qualquer coisa que falasse cairia em ouvidos surdos. “Tu é gringo”, era a resposta que mais ouvia. “Aqui é diferente”. E a vida de quem sobrevive continua.

Quando finalmente chegaram a uma porta com uma placa que indicava acesso restrito, o jovem parou de sopetão e largou a maca.

— Vai pra casa, gringo. Vai demorar aqui, é cirurgia. — disse o enfermeiro antes de passar sozinho pela porta redobrando os esforços na maca. Peter ficou observando-os se afastar até que a porta terminou de se fechar sozinha bem devagar.

Então, sentou-se no chão.

God, help her, please — sussurrou de olhos fechados, enquanto encostava a cabeça na parede fria atrás dele e aguardava.

 

  • Vinicius

    Tem continuação??? Preciso saber rs ^^ Me parece que não, eu sou péssimo para entender finais assim :/