31 de janeiro de 2013

Os restos

Quando nós o ganhamos, ele já era considerado lixo para o padrão da maior parte dos alemães. E com razão. Era grande demais, feio e descascava tanto que aspirar o chão uma vez por dia não dava conta do recado. Com o tempo, cinco anos depois que já estragado foi passado às nossas mãos, aquele sofá desgastado rasgou em tantos pontos que deixou a espuma à mostra e o couro artificial enrugado como um puff fatboy velho. Ninguém queria aquele sofá.

Nem mesmo o lixo o queria de graça (custaria uns 90 euros para nos livrarmos dele). Era totalmente inútil.

Mas, um grupo de estudantes o quis. Coisa de estudante. Agora eles virão e carregarão esse monte de lixo com eles. São restos, sem valor…

Exceto que era naquele cantinho que ele gostava de sentar para esticar as pernas depois de um longo dia. E ali nos aconchegávamos juntos para ver um DVD numa noite fria. Ali nos sentávamos todos para ler a Bíblia e cantar canções com versões que ninguém mais conhecia. Ali fiquei deitada ardendo em febre numa passagem de ano. E bem ali ele passou noites acordado, alternando entre orações e pranto por preocupações nossas. Foi também ali que meu marido estava sentado quando pediu a ele permissão para me namorar. E nos olhamos sem jeito, sem saber o que fazer, quando recebemos sua benção. Ele sempre naquele canto, cantarolando, contando causos e sonhando. As mãos batucando sem som no braço de espumas do velho sofá.

Aqui estou, sentada, relembrando, calculando perdas e lágrimas derramadas em vão.

E, agora, tudo vai embora, largado nas mãos descuidadas e sem lembranças de mentes mais jovens e desapegadas do que eu.

Eles estão chegando…

Adeus.