13 de março de 2013

Outro mundo

A Maria do Carmo é ingrata e egoísta. Mas, também… quem não é, né?

Ela não tinha mais que 13 anos de idade quando foi acolhida por dona Bianca. O pai desabilitado, a mãe dividida entre dois empregos mal pagos e três irmãos menores com choramingos agudos. Dona Bianca, como só podia, sentiu pena dos olhinhos caídos e das unhas sujas que lhe pediam comida no portão de casa. Ao invés de simplesmente alimentá-la, foi muito além.

— Trabalhe pra mim, menina. E terá comida garantida todos os dias.

Quem se arriscaria tanto de receber alguém em casa por mera compaixão? Quase ninguém. Pois dona Bianca cumpriu a promessa. E a menina mereceu. Era uma trabalhadora nata. De noite e de dia se dispunha e labutava. Enquanto os adolescentes da casa brincavam em seus quartos, as borboletas dançavam, o musgo da piscina se multiplicava e as plantas murchavam debaixo do sol, lá estava ela, aos pés de dona Bianca, como um cachorrinho treinado ansioso pela benção de seu benfeitor. E recebeu mais do que a benção. Recebeu carinho, presentes espontâneos (souvenir de uma filha de quando voltou da França ou um capuz do Mickey diretamente da Disney—nada baratinho não, de qualidade), bijuterias da lojinha perto de onde dona Beatriz trabalhava e, mais importante do que tudo, a confiança como a de alguém que pertencesse à família. Seu Rodolfo, até morrer, frequentemente trazia doces para todos, inclusive para ela, e até a chamava de filha. E Maria continuava a serví-los.

Muitos anos depois, no entanto, a consequência dos mimos deu as caras.

— Como assim, não quer mais dormir aqui, menina? Desde quando?

O choque era natural, até esperado. Não houve alertas, nem brigas, nem motivos. Dona Bianca sempre a tratou como uma filha. Como podia? Lágrimas de rímel começaram a descer pelo rosto da patroa. Maria não tinha palavras para explicar. Para ela era tão óbvio, mas dona Bianca se recusava a aceitar. Traição. Falta de consideração. Afinal, quem iria pegar um copo d’àgua se tivesse sede nas madrugadas? Quem acharia seu chinelo se não encontrasse logo de cara? E se houvesse uma emergência médica—a ambulância se chamaria sozinha? Não era esse o combinado, não era isso o que esperava dela. Ela era mais que uma empregada, era uma amiga da família! Não tinha compaixão? Não tinha carinho? Pois se era assim, que fosse embora e não voltasse mais.

Depois de muitas lágrimas de todos os lados, a moça cedeu. Ainda não era a hora de partir.

Dona Bianca ficou por muito tempo magoada. Afinal, era muita folga e ingratidão. O que mais ela queria? É coisa de gente muito mimada reclamar de passar a noite numa cama confortável, sob um teto seguro. Meu Jesus, as pessoas nunca se dão por satisfeitas.

O tempo passou assim, o relacionamento capengando numa trilha incerta de confiança e desconfiança, carinho e demandas, compaixão e ressentimento. O dia D ficou para décadas depois.

Por essas dias, Dona Bianca mal andava mais. Os olhos se tornaram pequenininhos, a voz seca e arranhada. Os filhos já não apareciam muito em casa e os corredores se encheram de ecos e silêncios. Foi quando chegou a notícia terrível.

Meu Deus, e agora? Quem cuidará de mamãe?

O repórter anunciava uma nova lei trabalhista para as domésticas. Oito horas de trabalho, fins de semana, décimo terceiro, benefícios. Céus. O que está acontecendo com o Brasil? E agora? O mundo desaba assim?

Pior de tudo é que foi Maria que exigiu seus direitos.

Mas, sempre desconfiaram mesmo que ela era dessa laia. Por trás dos doces olhos só tinha calculismo, conspiração. Ela fingia que se importava só para manter controle da situação. O que queria mesmo era mamar nas tetas da família e depois morder a mão que a alimentava. Maldita!

Como foi angustiante o pranto de dona Bianca! Os filhos fuzilavam-na com o olhar. Por que, por que fazia isso com ela? O que mais queria na vida?

Maria não aguentou as farpas retóricas e finalmente soltou:

— Mas isso aqui não é vida, é escravidão!

É praticamente impossível descrever tudo que se passou na mente de dona Bianca quando ouviu o protesto. Foram tantos pólos conflitantes para uma mente já cansada e velha que ela mesma não se deu conta da maior parte deles. Mas, digamos que de um lado chispou uma ponta de consciência pesada. Do outro, mais forte, a revolta da injustiça da afeição recusada. Por trás, medo e desconfiança—Deus meu, de onde ela tirou isso? De onde vem essa perspicácia? E a esse medo chamou de compaixão: afinal, quem a ensinou a pensar? Pobrezinha. Alguém em sua situação tão miserável jamais deveria notar onde está. Como será possível para ela ser feliz assim? A ignorância seria eternamente sua maior aliada!

Talvez tivesse razão.

Maria do Carmo teve uma filha de alguém que não amou e jamais casou. Ambas dormiram na dependência de empregada por trás da casa até o dia que achou melhor que a pequena vivesse com a avó. Muitas vezes pensou em fugir com a criança, mas durante todas essas décadas não ousou. Quem daria o pão aos seus pais e irmãos? Os filhos de dona Bianca que conseguissem algo melhor.

E conseguiram. Saíram, conquistaram, tornaram-se.

A analogia particular que Maria nutria, de um passarinho sem asas para realizar o sonho de voar, soaria certamente estúpida aos ouvidos dos privilegiados. Mas, ela sempre foi capaz de pensar. E desejar.

Frequentemente inventou mundos. Nele, ela era a princesa e não a serva. Era amada por essência e não pelos serviços prestados. Bobagem tudo isso, é claro. O espelho lhe dizia que essa ideia de ser enxergada além da posição é coisa de novela mexicana, para atrizes que conseguem colocar o cabelo encrespado em ordem e os dentes alinhados. Fora contaminada pela ilusão barata da televisão? Achava que não. Porque sabia que nunca seria enxergada. Sabia que nunca falaria bem como os que estudaram. Sabia que nunca seria capaz de criar coisa alguma que fizesse diferença no mundo. Sabia que sempre seria menor, sempre desprezada, para sempre invisível. Nunca entenderia outra língua. Jamais saíria do estado, que dizer do país? Morreria sem ter visto a praia, sem conhecer os coalas ou visitar o papa na Santa Sé. Nunca seria compreendida. E ninguém acharia que ela merecia. A natureza permaneceria um enigma. O mundo, um mistério insondável.

Cálculos matemáticos só para o troco do pão. E o mais longe que iria seria até a padaria da esquina de casa. Ela era uma máquina utilitária. Quando perdesse a utilidade, teria que ir para o lixo, como o resto dos objetos imprestáveis da casa. Com uma diferença: seria jogada fora com um pedido de perdão. “Sinto muito, Maria, mas a gente não tem condições de sustentá-la se você não trabalhar, entende?” Não, não havia contos de fada para pessoas como ela. Esse era o caminho traçado e não havia opção. Então, por que, meu Deus, desejava tão ansiosamente ser resgatada? Por que o impulso cortante de saber, entender, conhecer, experimentar, ser, ampliar e amar além, além do que tinha sido capaz? Por que já nasceu condenada? Essa não era a vida que ela imaginou. Meu Deus, se não é possível um destino diferente, por que lhe deu imaginação? Por que sonhos para alguém tão pequena? Quem ou o que a contaminou?

O que a contaminou? Dona Bianca questionava também. Quem foi o burro que a ensinou a pensar? A vida seria tão confortável sem perguntas, só serviço. Por isso, de todos os presentes caros, nunca lhe deu um livro. Só pão e circo. Para que nunca descobrisse o quanto era miserável…

Ou miseráveis somos todos nós, refletiu sombriamente dona Bianca. Todos já nascemos condenados, com um fardo pré-determinado para carregar. Se ao menos Maria soubesse o quão pesada era a carga de dona Bianca, talvez tivesse amado mais. Talvez não se sentisse escrava. Talvez sentisse pena também. Era a certeza do fim, quaisquer fossem as alegrias do passado—agora irrecuperáveis. Só o carinho fingido por dinheiro de uma empregada e, agora, nem isso mais. Não era o silêncio dos corredores, era a história que se encerrou sem sequer deixar fantasmas para a assombrar. A casa se tornara só paredes, não era mais um lar. No início, no meio ou no fim—inevitavelmente todos se tornam personagens de uma tragédia. Não há motivos para inveja—a roda arbitrária do sofrimento gira e chegou a sua vez. Qual seu pior pesadelo? Acontecerá. Então, vá, sua ingrata. Sua—sua testemunha da minha vida, sua prova de que foi uma vida completa, sua última alma doce, apegada e fiel. Como tudo se tornou cinza! E—e agora? Quem vai lhe enxugar as lágrimas quando precisar?

Os netos de dona Bianca se admiraram quando Maria do Carmo, a tão querida amiga da família de longos anos, nossa Mariazinha, foi embora.

— E quem vai fazer o cuscuz? — um deles perguntou numa rara manhã que, perceberam, amanheceu sem Maria na cozinha.

— Não sei, meu bem, não sei. A gente compra em algum lugar.

Perdão se esse final é inconclusivo e não dá muitas dicas do que realmente aconteceu com as duas. Sinceramente não quis saber do resto. Acho que entendo a Maria, acho que sinto pena de dona Bianca, mas tenho medo de estar sendo cínica por acreditar mais na concretização do sofrimento da patroa do que nos sonhos da empregada. Existe justiça nesse mundo? Sou obrigada a responder que não. O paradoxo é que justamente essa desesperança que pode levar a uma esperança duradoura. Como bem disse C.S. Lewis:

Se encontro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é a de que fui criado para um outro mundo.

Talvez a imaginação nos foi dada para sermos capaz de enxergar o mundo além. Se há esperança de final feliz para a história é essa: que Maria e dona Bianca tenham entendido isso também.

  • Ótimo texto, e no final..C.S.Lewis? adoro, adoro. Um dos melhores livros que já li é “Mero Cristianismo”, é tão bom e verdadeiro. Sonho em ter toda a sua bilbioteca.

  • Infelizmente, neste mundo existem muitas Marias por aí, e às vezes, são as próprias filhas ou filhos da de uma D. Bianca. Parabéns pelo texto realista, Mima!

    • E, infelizmente, existem muitas D. Biancas também! :) Ou, felizmente, existem as duas. Não sei. Obrigada pelo comentário, Lígia :D

  • wania Braganca

    Engraçado que este final de semana conheci uma D. Bianca, que chorou muito. pois a Maria que ela deu tudo, esta processando ela.Bjos minha escritora favorita.

    • Claro que o fato de eu ser sua filha não influencia você em nada :) :* Beijos, te amo