23 de janeiro de 2013

Palavras dignas de você

Há muitos meses, quase anos, planejava escrever um texto a respeito do meu pai. Mas a ocasião nunca me pareceu ideal—nos últimos aniversários dele estive fora num estágio obrigatório do seminário e datas como Dia dos Pais passaram despercebidas por aqui. O momento não chegou, as palavras não se arranjaram sozinhas e o dia que finalmente fiz um texto a respeito dele foi o que li no dia 17 de janeiro de 2013 em seu funeral. O tempo era curto e as coisas descritas no texto uma gota no oceano do homem que ele foi. E foi tarde demais.

De qualquer forma, sei como ele reagiria ao que escrevi. Fiquei imaginando depois, enquanto meus irmãos, meu tio e amigos do meu pai carregavam o caixão para ser enterrado. A reação costumeira dele seria um abraço e dizer: “Filha, fiquei até emocionado. Você é tão linda, tenho tanto orgulho de você”. Sempre fazia isso. Eu ficaria brava de brincadeira e diria: “Linda?! E tudo o que eu disse lá na frente, nem importa, né?” Ele riria até tossir, como sempre fazia, e diria: “Você é uma ótima escritora, minha filha. Aliás, acho que você devia escrever um livro. Ia tocar tantas vidas”. Papai, sempre tão coruja.

No texto que li no funeral destaquei principalmente o ponto que ele mesmo considerava central em sua vida: a transformação de ateu em cristão apaixonado por Deus. Foi radical. Mas, essa transformação aconteceu antes de eu sequer existir. Quando conheci meu pai, ele já era esse homem maravilhoso, amoroso, totalmente correto e honesto em tudo que fazia. Quando nasci, ele já tinha ideais mais altos que todas as outras pessoas que conheci. Ele já era uma fonte de luz e esperança por onde passava. Então o ponto central da vida dele era um aspecto marginal e natural demais para mim. Não dava para imaginar meu pai sem Deus, pois Deus era o início e o objetivo de tudo que ele fazia e desejava. Esse é o conforto: ele foi para o lugar onde mais investiu sua vida. Não pode haver felicidade maior do que essa.

Desde que ele morreu, assim tão inesperadamente, eu soube que passaria o resto da minha vida procurando as palavras certas para descrevê-lo. O mundo precisa conhecer um homem como esse. Enquanto muitos choram por celebridades egoístas e inconsequentes que morrem afundadas em drogas e confusões, a maior parte ignora a perda de um dos melhores seres humanos que já existiu. Mas, sei que agora tudo que eu pudesse arrancar de mim para falar sobre ele soaria aos ouvidos de estranhos como um mero clichê e, para os que realmente o amavam, dolorido demais na alma. Então, serei breve por hoje.

Li em artigos que mortes inesperadas são muito mais difíceis de superar que falecimentos após uma longa doença. É compreensível. Não houve tempo para últimas despedidas, para olhares demorados e para perguntas a serem feitas. Não houve tempo para resoluções, para o processo de negação-revolta-negociação-depressão-aceitação, para a esperança insistente esmorecendo aos poucos junto com o som regular do monitoramento cardíaco ou para o pensamento horrível de que melhor seria a morte do que sofrer assim. O preço de uma morte rápida e sem suspense é aceitar o inconcebível enfiado goela abaixo pela falta de opção. Meu Deus, ainda não dá para acreditar. Ainda ontem estávamos ao telefone fazendo planos.

Ao contrário do que acontece em filmes, não houve pressentimento, nem dele, nem nosso. Seus últimos e-mails, suas planilhas de Excel com metas para o novo ano—ele mesmo não fazia ideia. Como poderíamos saber que um homem de 55 anos que raramente ficava doente se iria tão de repente? A gente sempre acha que há tempo e sempre acha que foi pouco tempo demais afinal. “E se…” se torna uma armadilha tão tentadora.

Eu sei o que eu faria se eu estivesse de fora dessa história toda (e eu realmente gostaria de estar). Faria aquilo que sempre fazemos quando não queremos ser confrontados com uma situação terrível demais para imaginar. Eu me convenceria que isso é algo que só acontece com os outros (graças a Deus), que é uma tragédia isolada, rara, da qual certamente seremos poupados porque é cruel e dura demais para suportar, tão horrenda que já traz lágrimas aos olhos só de pensar, já aperta o peito, já tem o efeito de um pesadelo. A morte, no entanto, é inevitável e é a única coisa que podemos estar certos que acontecerá com todos.

meupai

Isso me leva a acreditar que neste estado de luto que estou, tão agarrada na morte como se minha vida dependesse disso, estou com a perspectiva mais precisa que se pode ter. Sob a perspectiva de que o tempo é curto e a partida irrevogável, nossas reclamações se tornam revoltantemente patéticas, nossos planos e desejos fúteis e mesquinhos e toda nossa existência risivelmente mal-aplicada. Por que ainda perdemos uma hora de sono sequer por coisas tão inúteis e passageiras? Havendo juventude e saúde, elas passarão, os bens materiais se tornarão pó e a fama, o respeito, a admiração perderão a importância no túmulo.

O funeral do meu pai estava surpreendentemente cheio de pessoas e de lágrimas—supreendente para um homem tranquilo e reservado que só vivia há cinco anos neste país. Os comentários de todos era o mesmo: ele deixou um grande exemplo. Ninguém, a não ser meus irmãos e minha mãe, sabe a extensão e profundidade do quanto isto é verdade. Não esperamos a morte dele para reconhecer isso, sempre soubemos. Quando víamos tanta perversidade e desonestidade no mundo, olhávamos para o meu pai como um farol de esperança, um sinal de que realmente pode existir bondade. Desconfio que Deus levou meu pai porque também queria a companhia dele.

Em minutos, tudo mudou. A própria felicidade parece perder um pouco do apelo agora que não podemos mais compartilhá-la com ele. Mas, um dia, compartilharemos: finalmente, felicidade completa, inadulterada e eterna. A única felicidade que vale a pena.

Abaixo uma das músicas favoritas dele: