17 de janeiro de 2010

Poesia for dummies parte IV – Cecília Meireles

Cecília, Cecília, Cecília… Ah, Cecílinha…

Atenção: Se você quer saber dados factuais sobre a vida das poetisas e dos poetas mencionados, consulte a Wikipedia. Eu só trato de poesia. Vida de artista quem trata é Tititi e historiador.

O que eu gosto na poesia da Cecília?

É a mais musicada, mais cheia de curvas, mais cheia de sentimentos confusos.

Eu me identifico com a Cecílinha, porque, como todos sabem, ela tinha “fases, como a lua, fases de andar escondida, fases de vir para a rua“. Sempre dividida entre isto ou aquilo. Só quem sabe o que é indecisão sabe o que é indecisão. Só quem sabe o que é inconstância que (às vezes) sabe o que é inconstância.

Alguns poemas da Cecílinha podem ser mal compreendidos. Certos indivíduos certamente os julgarão depressivos ou excessivamente nostálgicos ou até mesmo apologéticos ao suicídio. Bah, bobagens!

A Cecílinha nao era nada disso! Bem, talvez um pouco nostálgica, mas só porque ela tinha plena consciência do quao passageiro tudo na vida é. Ela alertava que não devemos confiar no tempo ou na eternidade, porque as nuvens nos puxam pelos vestidos, os ventos nos arrastam contra nossos desejos. “Apressa-te, amor, que amanha eu morro, que amanha eu morro e nao te vejo!”

Mas, ela não enxergava essa brevidade da vida como algo necessariamente ruim. No 4o. Motivo da Rosa, ela diz “eu deixo aroma até nos meus espinhos / ao longe, o vento vai falando de mim. / E por perder-me é que vao me lembrando, / por desfolhar-me é que nao tenho fim“.

Em tudo que conheco da Cecílinha, só uma coisa me incomoda. Por que, oh, por que ela colocou o sonho num navio e o fez naufragar? Por que alguém faria isso? Por que afundar o próprio sonho de propósito e depois ficar com as mãos quebradas? Alguém pode me explicar?

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Bem, acho que a Cecílinha não queria que a gente entendesse, só imaginasse e sentisse. Ela era cheia dessas coisas. Afinal, “a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada”, nao é mesmo?

[yellow_box]Você gosta da Cecília Meireles? Por que? Por que não?[/yellow_box]