14 de março de 2013

Quem é você, Islândia?

Texto em parceria de Mima Pumpkin e Mimi Trancinha.
Inspirado nas sugestões de Bruno Pumpkin e Jonatas Trancinha. Dedicado ao casal Clark e Amypor sua intensa devoção pela Islândia.

Era mais fácil enxergar meus pés debaixo d’água do que o aceno das minhas mãos na atmosfera densa de vapores plainando sobre a superfície do lago.

Por que não vim pra cá antes? Paris, Roma, Praga são tão superestimadas.

Mal posso acreditar que tenho algumas semanas nesse paraíso.

As piscinas térmicas da Islândia, misteriosamente ignoradas pela grande massa turística, parecem ser feitas do material de algum sonho antigo e há muito esquecido. Talvez sejam o calor intenso e relaxante da água ou os sons reverberantes que me remetem ao conforto de como imagino um útero maternal ou à liberdade de quando éramos ainda seres pré-corpóreos. Não é à toa que os antigos acreditavam nos poderes mágicos dessa maravilha natural. Poetas da antiguidade costumavam peregrinar pelas montanhas até esse mesmo local pois acreditavam que na névoa descansava o innblastur, a inspiração do cosmos.

Imagino o descanso do cosmos no balanço do rodopiar da névoa enquanto respiro.

Estava pensando sobre isso, quando, com um sobressalto, percebo que alguém está falando comigo. Estou tão acostumada com o silêncio condescendente dos nativos, uma vez que percebem que não falo a língua deles, que se tornou totalmente inesperada qualquer forma de contato humano. Fico ali boquiaberta enquanto tento decifrar os sons inintelígiveis que perfuram a densa névoa e, por conseguinte, meu momento meditativo místico.

A verdade é que o idioma islândes mais me parece algo inventado para os orcs da Terra Média. As sílabas deslizam, rolam e respingam como um riacho repleto de obstáculos. Demoro alguns segundos para identificar de onde vem a voz.

O vulto de um senhor calvo e assustadoramente branco se aproxima e aponta na direção dos meus pés. Quando olho para baixo, distorcida pelas ondulações da água, vejo, próxima ao meu dedão direito, uma caneta dourada. Não é difícil deduzir que é na caneta que ele está interessado. Intrigada, começo a me abaixar para recuperá-la, me perguntando como ele conseguira enxergar aquele objeto minúsculo através da névoa onipresente.

Mas, antes, arrisco com o meu inglês de quatro anos no CCAA:

— Sir, do you speak English?

Ele me olha confuso por um instante, gotículas de umidade descendo de sua testa reluzente. Ele assente com a cabeça e com um forte sotaque de orc responde:

— Mas é claro, mulher.

Desviando-se dos círculos dançantes de vapor ao seu redor, galga até a mim, como se pretendesse contar um segredo. É aí que ele começa sua história:

— Acredite, eu aqui nessa idade já avançada, disputava o tempo que sobreviveria sem respirar debaixo d’água quando fui cegado por um brilho dourado no fundo do lago. Cegado sim, pois era como a luz de mil sóis num só astro em seu último ciclo. Primeiro cri, é claro, se tratar de uma miragem, o efeito da falta de oxigênio nos meus pulmões. Creio que morrerei numa dessas disputas, pois meu adversário não é ninguém além de eu mesmo, ou melhor, as versões de quem já fui, o meu eu de ontem que morra afogado enquanto se esforça por me superar! E já não é a primeira vez que delirei de calor e falta de ar por esses lados: é a desvantagem da minha competitividade, confesso. Mas, por outro lado, bem poderia se tratar de uma estripulia dos guardiões do innblastur, aqueles anjos com guelras que confundem os poetas com imagens de sereias sedutoras e naufrágios, na tentativa, bem-sucedida, digo eu, de enlouquecer os coitados. São poderosos e terríveis esses anjos.

Não me pergunte como entendo tudo isso com meu inglês capengo. Talvez por obra do innblastur.

— Mas, logo se acostumaram meus velhos olhos com o brilho dos mil sóis ou, quem sabe, uma teimosa nuvem tenha se instalado sobre o nosso lago bloqueando a fonte do reflexo, pois, em dado momento, fui capaz de delinear os contornos do objeto dourado, antes que se acabasse meu fôlego por completo. E qual não foi minha emoção ao perceber que era uma caneta! Uma caneta dourada, bem no meio do nosso lago! Um mistério por si só, é claro, exceto que, próxima à caneta, estava a senhora, a própria personificação mágica do innblastur, e não diga que não é anjo nem sereia, pois só acreditarei quando não for capaz de encontrar suas guelras!

Estupefata com esse discurso, primeiro arfejo, depois gaguejo e então rio. Eu? Um ser mitológico? Ah, por favor, nós estamos no lugar mais fantástico do mundo, então provavelmente sou o que tem de mais urbano e medíocre por aqui. Mas, ele continua, o sotaque de orc cada vez mais assemelhando-se ao élfico pela cadência lenta da narração:

— Foi quando realmente temi—não pela minha vida, não, senhora, mas pela minha alma! Pois se enxergava a mais bela das guardiãs e sua magnífica caneta dourada, o coração do cosmos—sim, por certo que já estava morto—pois que destino temível me aguardaria ao ousar ser testemunha do maior entre os segredos do universo? A grande musa das palavras e seu instrumento de batalha expostos diante de mim!

Lágrimas, lágrimas de verdade, começam a surgir em seus pequenos olhos azuis e, agitando as mãos no ar, com voz rouca prossegue:

— Ah, Senhor — chorei bambo nas pernas a Deus, vê — tem misericórdia da minha alma, pois minha disputa era comigo e não com teus mensageiros! Não busquei coisas altivas demais para mim, nem segredos que não me pertencem. Esses mistérios são objeto de caça dos teus poetas. Já eu, não passo de um pobre velho que se contenta em não saber.

— Foi quando me veio o sinal de graça da parte do Todo-Poderoso. Mal concluí minha oração com um amém, a senhora sorriu, vê? Sem nem me conhecer, ouvir ou sequer me ver. Sorriu para os céus, assim sem motivo, como se a névoa não a oprimisse, como a se vastidão não fosse vazio. Que doce martírio que assim sorrisse—pois ao dar minha liberdade foi como me tornou cativo. Eu soube nesse instante que minhas velhas retinas ficariam marcadas pela eternidade com a beleza do seu sorriso, a dádiva do mais belo dos anjos do innblastur. Não, não, foi castigo. Não haverá descanso para a minha pobre alma enquanto não puder novamente fitá-la.

Sorrio. Não sei se se trata de uma cantada extremamente elaborada ou de um surto psicótico de uma mente decadente, mas a forma como fala me parece tão sincera e espontânea, que me deixo envolver e não resisto conceder-lhe mais um sorriso.

— Por que o senhor está me contando isso? — pergunto com um trejeito nos lábios numa desconfiança brincalhona.

— Ah, senhora, tenha misericórdia. Quem vai acreditar na minha história se não tiver a caneta, a caneta dourada, para provar? Já que não posso levar a senhora para casa, que seja apenas o seu instrumento. Peço como alguém que já alcançou graça aos seus olhos uma vez. Que eu ouse alcançar sua benção por mais outra.

Olho para baixo e observo dançando no fundo do lago o brilho dourado que causou tanta comoção. Não me parece algo valioso. Imagino que seja apenas tinta num material de escritório convencional. Quando era criança, ganhei uma assim do meu irmão. Dentro de poucos dias, já descascava e mostrava um marrom sujo nas regiões onde meus dedos mais tocavam. Não custaria mais que alguns míseros euros.

Levanto o olhar novamente para o senhor cuja pele engelhada de umidade e de anos se confunde com a brancura do vapor d’água. Ele me observa imóvel, esperançoso. Comovida, cedo ao encanto da persuasão e mergulho na água para apanhar o objeto tão desejado. No momento em que afundo, o mundo vira um eco, um burburinho. Solto bolhas. A água é amarga, as ondulações distorcem, me ardem os olhos. O brilho me cega por um instante. O desejo pelo objeto me impulsiona e luto contra a resistência do lago. Quando agarro o fundo do mar, grãos de areia nadam por entre os meus dedos na correnteza e no centro da minha mão só sobra a superfície dura e lisa da caneta. Quando isso acontece, me deixo novamente ser carregada pela água até à superfície e, arfejando, constato que não o vejo mais lá.

Seco os olhos com a palma livre, desorientada, olho para um lado e para o outro e nada.

Apenas o rodopio da névoa nos ares.

E uma caneta dourada nas mãos.

Os títulos que eram mas não foram


Crônica de Gelo e Vapor d’água
O innblastur é para todos
As vantagens de ser um mito
A culpa é das sereias