9 de novembro de 2011

Quem tem medo de perguntas?

Ninguém sabe como essas coisas acontecem, mas, às vezes, simplesmente acontecem. Por exemplo, que Dimitri simplesmente apareceu, como que por teletransporte, de bumbum no tapete fofo e peludo na casa de Gruschunka, ninguém pode explicar. Afinal, a porta de madeira maciça tinha trancas dignas de um banco e as janelas, vidros espessos que só uma bala de canhão atravessaria.

O tapete levemente embolorado se encontrava no meio de uma sala ampla com paredes muito altas, mas totalmente atulhada. Armários e estantes por todos os lados, catálogos, caixas, documentos, anotações, revistas, jornais, discos de músicas e filmes, fotos, souvenirs, pastas, quadros, flores, louças, talheres, coleções. Tudo perfeitamente organizado e arquivado. Por cima de todas as janelas, haviam cortinas escuras e pesadas. O ar era quente e cheirava a mogno mofado e queimado.

Sob a luz de uma única vela, Gruschunka, logo de início, sequer deu conta da presença do intruso, que agora espalhava fiapos brancos, engatinhando-se.Pintando as unhas, sentada à longa mesa de madeira, balançava a cabeça ao som de batuques altíssimos de instrumentos eletrônicos e uma voz artificialmente aguda.

Não foi com um susto que Gruschunka, Grunscha para os íntimos, finalmente percebeu o vulto do homem à sua frente. Silenciosa, aproximou-se do rosto petrificado de Dimitri e segurou a única vela a poucos centímetrosde seu nariz.

– Ahr, Dimitri! Como entrou aqui.. Por um segundo temi que… Mas, deixe, não importa. – e sorriu largamente. – Você pode bem servir… Precisava mesmo de companhia. É às vezes solitário, você sabe… Minha música é minha companhia. – apontando para o exagerado aparelho de som que tremia os alicerces da casa. Dimitri ergueu-se, não sem dificuldade, com cuidado para não estragar o tapete e bateu o pó que estranhamente já repousava sobre as pernas de sua calça. Os lábios se mexeram, mas nenhuma voz podia ser ouvida acima dos ruídos nervosos das caixas acústicas.

– Não importa. – sorriu Grunscha. – O que importa é que você está aqui. O que… Sim, sei que não nos entendemos, mas, afinal, não fomos feitos para ser entendidos, mas sim para ser amados. Este é o começo de uma linda amizade. Já viu esse filme, certo… Mas o que estou dizendo… Onde estão os meus modos… Quer uma xícara de chá… Estou tão nervosa. Não é sempre que recebo visitas… Ainda não sei como você entrou… Mas, que importa… Você está aqui, isto importa. – Grunscha deixou-se cair numa poltrona surrada de pano e, nesse momento, uma neblina de pó ergueu-se cobrindo-lhe a visão. – Sim, eu sei. Faz um bom tempo… Mas, que importa. Observe minhas estantes, quantas coisas juntei ao longo dos anos. Diria que minha coleção é completa. Você diria até mesmo que sou a garota que tem… tudo. – riu sozinha, limpando as mãos na saia.

O chão, as paredes, tudo vibrava com os graves da música. O grande lustre de velas arranhava o ar como um grande machado, conforme era empurrado pelas vibrações para um lado e para o outro, um lado e outro. Camadas de pó e teias de aranha dançavam sobre todas as superfícies. Protegendo ambas as orelhas com as mãos, o jovem Dimitri saltou ao canto direito da sala e com um rápido movimento desligou a fonte da tempestade de decibéis. Mas, mal a música cessou, logo percebeu que os ruídos vinham também de outros lugares. A sombra de melodia foi substituída por meras batidas, tão fortes quanto assustadoras, à porta e às janelas. Os alicerces continuavam a estremecer. A sensação era a de que uma família de dinossauros espancavam a casa com a cabeça, como se esta fosse um jipe ocupado por crianças medrosas.

– Não! – gritou Grunscha em desespero e jogou-se ao chão dramaticamente. – Que barulho terrível, insuportável, odioso. – Levantou-se e com olhos aterrorizados voltou a apertar o botão no aparelho, fazendo com que a música ritmada retornasse. Suspirou aliviada quando a bateria eletrônica e os sons de teclado retornaram – Cuidado, Dimitri Karamelo, – sorriu tímida – outros já foram expulsos daqui por muito menos.

Dimitri suspirou e, com pressa, novamente desligou a música que abafava os sons externos. Pedaços de reboco caíram do teto com o espancamento. A porta, outrora aparentemente segura, agora mais parecia ser de papel. Dimitri não compreendia o por quê dessas batidas na porta.

– De que se trata… Por que nao os deixa entrar… Deve ser importante… – sugeriu o intruso, inocentemente. – TUM, TUM, TUM…

– Não, são monstros! São terriveis! Valentões, covardes! Não, não – chorosa, Grunscha lançou todo o seu peso contra a porta tentando mantê-la firme. – Você não sabe do meu esforço, da minha constante vigília para mantê-los fora. São insistentes, pois querem me humilhar, confundir. Destroem tudo o que vêem. São como crianças malcriadas, exceto que extremamente fortes. Por ignorância ou curiosidade, talvez, certa vez deixei-os entrar. Naquele tempo ainda eram pequenos e poucos. No pouco tempo em que estiveram aqui, você precisa ver o que este lugar se tornou! Trocaram as etiquetas das minhas pastas, espalharam minhas anotações pelo chão, jogaram livros de dogmas no lixo, no lixo, Dimitri! Você entende então, é claro… E o horror, o horror! Diante dos meus olhos, foram se multiplicando. Não sei de onde vieram ou como souberam que estávamos aqui, mas se tornaram demais para uma única casa sustentar. Pisotearam e comeram tudo, tudo!, até mesmo o meu antigo sofá. Ainda não sei como os consegui expulsar, mas consegui. E agora, cá estou. Viva, mal sei dizer como. Oh, esse barulho terrível! Minha música, de alguma forma, me faz esquecê-los. Faz-me sentir segura. Oh, Dimitri. Se entrarem, morrerei, sei que morrerei. Levarão tudo, esmagarão o que houver no caminho, como uma locomotiva sem fim, sem destino, sempre em frente, rangendo, mastigando, esbaforando fumaça. – TUM, TUM, TUM à porta.

– Mas que criaturas podem ser assim tão terríveis, Grunscha… – TUM, TUM, TUM….

– Oras, homem. São… – TUM, TUM, TUM. Engoliu seco. – São os terríveis pontos de interrogação. Estes arruaceiros ficam extremamente ávidos e irritadiços, pois não há respostas suficiente para todos! São uns bandidos, monstros, isso que são! – TUM, TUM, TUM….

– Mas, Grunscha, não é possível para um ser humano viver assim. Prisioneira em sua própria casa! Cercada de fotos de lugares que nunca foi, cheia de livros com relatos de vidas que nunca viveu! Não, há um mundo lá fora. Não pode viver assim.

– Mas, Dimitri! Eles são tantos! Minha segurança, minha ordem, minha rotina… tudo desaparece quando os deixo entrar. Escute o barulho que fazem, veja o esforço diário com que os mantenho fora. Meus romances, meus programas, o ruído… só isso me ajuda a esquecê-los! – TUM, TUM, TUM – E a chacota dos pontos de interrogação faz com que eu duvide–imagine!–até mesmo do meu gosto. Faz minha vida parecer tão ridícula quanto patética e inútil. Não, Dimitri! Minha vida é do lado de cá, talvez numa sala um tanto escura, mas é uma vida em paz e assim sou feliz!- TUMTUMTUMTUMTUMTUMTAH, a porta pareceu se dobrar ao meio com a força das batidas.

– Grunscha, você precisa enfrentá-los. Uma vida aprisionada não é vida!

– Eles são mais fortes do que eu, mais fortes, Dimitri! Serei publicamente humilhada. Serei espancada, derrotada. Perderei tudo! Eles não deixarão nada, nada dos tesouros que passei tanto tempo ajuntando e organizando.

– Grunscha, eles não irão embora. Você pode afogar o seu som, você pode tentar esquecê-los, mas sempre estarão lá. Se não pode vencê-los, junte-se a eles! Faça dos pontos de interrogação seus melhores amigos. Deixe-os redecorar a casa, alimentar-se dos seus pensamentos, iluminar estes cantos escuros e, quem sabe, encontrar abandonadas entre as teias de aranha e debaixo do pó as respostas que necessitam.

De repente, o rosto de Gruschunka pareceu acinzentar e a casa tornou-se morbidamente fria. O barulho cessou por um momento, causando um silêncio lento e surreal como uma folha de papel que dança no ar até finalmente pousar no chão. De repente, um rugido ensurdecedor balançou a casa. O rosto de Dimitri empalideceu.

– Não somos fortes o suficiente, agora vejo… Morreremos, agora sei… – disse, engasgando. Mais um pouco de reboco caiu do teto e uma lâmpada espontaneamente acendeu-se acima da cabeça do rapaz. – Sei que é idiota, mas poderíamos pedir por proteção a ele. – TA! TA! TA! – Morreremos, eu sei. Morreremos, a não ser que… Não somos fortes, Grunscha! Ele é! Precisamos telefonar para ele, pedir que venha imediatamente.

Grunscha fez uma careta e zombou tristemente. – Venha imediatamente… Ele já mora aqui há anos e nada fez a respeito. – TA! TA!

O choque na expressão de Dimitri seria cômico, se não fosse tão embaraçoso. – Ele mora aqui! Mas não o vi em momento algum. Então, é verdade… Mas, como… Ouvi falar que ele é tão grande, que não há quartos grande o bastante para comportá-lo e tão forte que nem mesmo correntes de ferro o aprisionam. Dizem que o mero som da sua voz atemoriza até mesmo animais selvagens! – gritou, apertando os olhos ante a escuridão. TA! TA! TA! TA!

Lágrimas rolaram sobre o rosto de Grunscha, enquanto tentava inutilmente empurrar a poltrona em direção à porta. – Eu não o permito entrar neste cômodo. Envergonha-me a sujeira. Tanto pó acumulado, tanto entulho. Com certeza está melhor ajustado no quarto de visitas. Lá é sempre iluminado e limpo. A melhor e mais nova mobília vai sempre para lá. E o mais importante, naquele quarto há silêncio e paz. As portas não deixam passar um único ruído e as paredes são tão fortes que nem mesmo os monstros lá de fora as abalariam. Não quis que ele precisasse conviver com esse barulho horrível, com o mofo e essa falta de ar. – Soluçando o choro e limpando com as costas da mão a pasta de suor e pó na testa, Grunscha freiou o empurrão no móvel e quase desmaiou ao ver a porta se partir ao meio e dezenas, não, centenas!, de criaturas cinzentas e asquerosas saltarem adentro. Como rãs famintas, subiram pelas paredes, pelo teto, comendo e pisoteando tudo à frente. Madeira, plástico, pedra, papel ou metal. Nada era resistente ou indigesto o bastante para os psicóticos Questionamentos.

– Deus, ajude! – gritou, quando estava prestes a ser esmagada por um ponto de interrogação que mais parecia um troll da Terra-Média. Neste momento, uma cegueira branca e luminosa cobriu todos os presentes e conforme as pupilas se ajustaram, percebeu-se que a porta do quarto de visitas havia sido arrancada e lançada metros de distância e diante do batente se encontrava ele. Grunscha mal o reconheceu. Os monstros, paralisados, tinham proporções de baratas diante dele. E conforme ele os olhava, um a um, muitos simplesmente esvaneceram como miragens nebulosas, outros transformaram-se como borboletas, corados e vistosos. Ele ergueu as mãos, curiosamente marcadas com cicatrizes circulares, e apontou para a destruição. Os pontos de interrogação que ainda viviam, como bons mordomos, começaram a arrumar e aprimorar a sala. Arrancaram as velhas cortinas, estilhaçaram as janelas desnecessariamente espessas, bateram o pó dos tecidos e recatalogaram tudo que contivesse qualquer tipo de informação. A prataria foi polida, o chão encerado, os livros e móveis renovados e tanto o excesso quanto o que estava estragado foram, de fato, jogados fora. Grunscha e Dimitri apenas encararam boquiabertos e admirados. Tudo reluzia. Ao mesmo tempo, ambos olharam para ele um tanto constrangidos, um tanto maravilhados. Ele apenas sorriu e ergueu os ombros como que dizendo factualmente “é isso que eu faço, oras”.

Nos anos seguintes, Dimitri passou a visitar assiduamente, já que, a partir de então, a porta estava sempre aberta. Eventualmente, casaram-se e foram morar no antigo quarto de visitas. Já a administração da casa toda passou para o Protetor. O local virou ponto de encontro para viajantes e familiares e crianças e velhinhos. O som mais constante era de risadas, palmas e música ao vivo. A luz entrava por todos os lados, saía dele e retornava pelas grandes janelas abertas, junto com a brisa fresca de um oceano aberto.Todos os pontos de interrogação, assim como os de exclamação, os finais, os que vinham acompanhados com vírgulas e até mesmo a pequena gangde moleques que só aceitavam ser chamados de “reticências” passaram a ser empregados exemplares naquela casa. Em agradecimento pelo trabalho honesto, escreviam poemas e contos para serem lidos na sala, em frente à lareira, em dias de inverno. Pode imaginar um final mais feliz?

Mima Pumpkin

Não posso dizer que nunca tenho dúvidas, nem posso desejar não tê-las enquanto nele não tiver o coração do bem como meu próprio coração. Pois a dúvida é o martelo que estilhaça as janelas embaçadas por fantasias humanas e deixa entrar a luz pura. Mas eu afirmo que toda a minha esperança, toda a minha alegria e toda a minha força estão no Senhor Cristo e em seu Pai; que todas as minhas teorias de vida e crescimento estão enraizadas Nele; que Sua verdade vai pouco a pouco esclarecendo todos os mistérios deste mundo […] A Ele pertenço, coração, corpo e alma, e Ele pode fazer de mim o que lhe aprouver – não, melhor – eu Lhe suplico para fazer de mim o que Lhe aprouver: pois nisso está meu único bem-estar e liberdade. George Macdonald

 

 

Welcome Home (tradução) Shaun Groves

“Bem Vindo à Sua Casa”

Bem vindo ao meu coração
Que está coberto por um mato de orgulho
Que cresceu pra esconder a bagunça que eu fiz
Dentro de mim, vem redecorar, Senhor
Abre a porta que range
E anda pelo chão empoeirado
Esfrega as manchas de culpa
Até que não sobre mais pecado ou vergonha
Espalha Seu amor pelas paredes
E ocupe as salas vazias
Até que o homem que eu era desapareça
Não sobrem mais portas bloqueadas
Vem dentro deste meu coração
Que não é meu
Sinta-se em casa
Vem e toma este coração
E torna somente Teu
Bem vindo à Sua casa

Senta, puxa uma cadeira
Me perdoa a bagunça
E os trastes empilhados do chão ao teto
Que se amontoaram na minha busca por respostas
Cada armário cheio de entulhos
Desordens que ainda nem foram descobertas
Não tenho mais controle, eu entendo
Não tenho condições de fazer o que o Senhor faz, neste lugar
Peguei o espaço que o Senhor pôs em mim
Redecorei com tons de ganância
E me certifiquei de trancar todas as portas
Bloquear todas as janelas,
e ainda assim o Senhor batia
Toma-me, faz de mim
Aquilo que queres que eu seja
É tudo que peço, tudo que peço