30 de setembro de 2012

Truques de beleza

Era domingo de manhã, o que já diz tudo para quem conhece a massa da população europeia que se diz cristã.

Estávamos na sala de reuniões, todos sonolentos, incomodados com o frio recém-chegado do outono nascente, uns barulhentos, outros bocejando, todos semisatisfeitos no automatismo do ritual matutino dominical: música americana animada, mãos erguidas ao alto, uma mensagem inspiradora do pastor, coleta das ofertas, rápidos apertos de mão, “a paz, como vão todos?” e bolo no final da reunião. Mas antes de tudo ouvimos um anúncio: Lisa gostaria de dar um testemunho.

Já sabíamos o que esperar. Dignos do palanque e do microfone para testemunhar são pessoas saudáveis, lindas e felizes, verdadeiros exemplos do bem-estar do estilo de vida cristão. Super-heróis, de fato.

Mas Lisa era muito magra e muito baixa como uma versão reduzida, preservadas as proporções, de um adulto. O cabelo muito ralo e desordenado caía pela testa e emoldurava as grandes orelhas de abano. As bochechas caídas estavam coloridas por manchas irregulares de vermelho e roxo. Dentes tão grandes e deslocados que empurravam os lábios para frente. Sua voz começou a falar de forma tão fanhosa que mal podíamos, ou queríamos, entender uma palavra. O desconforto era geral.

“Eu ia para outra cidade para uma consulta no médico”… ela fez pausa para a interpréte em inglês interpretá-la até para nós que falávamos alemão… “E, orando naquela manhã, Deus me disse: não tenha medo!…” A voz de Deus saindo dela esganiçada e mal-pronunciada. “E não tive.”

Não entendíamos totalmente, mas havia algo em Lisa que a transformava enquanto falava: seu rosto brilhava. Deveria tremer diante da multidão que escutava, mas exultava. E desafio qualquer um que estivesse naquele local a afirmar que Lisa, com sua alegria simples, sua coragem extraordinária e seus olhos esperançosos, não era a pessoa mais linda do salão.

Lisa, depois soubemos pelo pastor, é portadora de uma séria doença no coração e estava programada para uma cirurgia naquela semana, da qual, possivelmente, não sairia viva. A cirurgia fora cancelada por tempo indeterminado. Os médicos decidiram que não seria necessária.

Não conheço Lisa. Só sei que ela é linda. E percebi naquele momento que é tão barato ser bela. E não estou falando de beleza interior, estou falando de beleza que os olhos podem ver.

Comecei a pensar em todos os momentos da minha vida em que vi pessoas que achei lindas. Tinha pouco a ver com maquiagem, postura ou autoconfiança. Vestidos não ganham corações, marcas de batom não encantam e ninguém se apaixona por seu estilo ser o da última moda.

Fiz uma lista, para lembrar a mim mesma, do que realmente deixa uma pessoa linda. Quero pendurar no espelho para me preocupar mais com esses tratamentos de beleza do que com a minha roupa.

Lembrando que a beleza sem essas qualidades tem data de validade. Já a beleza acompanhada delas nunca se vai. Não existe tratamento estético com melhor relação custo-benefício.