27 de abril de 2015

Você ou ela

Depositei minha felicidade nos seus ombros e pedi pra você carregar.

Você, orgulhoso da força de suportar o que ninguém mais pôde, aceitou a carga de bom grado e quis caminhar ao meu lado.

Lá íamos nós, o casal estranho. Você com o mundo nas costas e eu toda deslumbrada.

“Olha que lindo”, apontava. “E olha aquilo!”, admirava.

Você sorria e ajeitava o fardo. Eu apenas dançava.

Os anos foram se passando e a carga bambeava sobre seus ombros curvados.

Os braços tremiam.
O suor ardia nos olhos.
As pernas foram fraquejando.

E, com o tempo, aconteceu o natural: o que um dia era leve passou a pesar.

E mesmo assim você forçava um sorriso, fingia que nada acontecia.
Porque era aterrorizante demais admitir que minha felicidade se tornara um peso insuportável.

Eu reclamava.
“Olha, você está quase deixando ela cair! O que se passa?”
E você não falava, apenas balançava a cabeça e suspirava.

“Mas ela vai tombar!”, gritei, esperneei e gemi. Apontei, resmunguei, chorei.
Você se calava e caminhava, uma passada esforçada de cada vez.

Um dia, vi você cair de joelhos ao chão.

Naquele momento que você apertou os olhos com força, deles escaparam lágrimas. Com a cabeça pendida e o corpo todo balançando, você lutou para controlar a respiração acelerada e levantar.

“Não a derrube. Não a derrube. Não a derrube”, era tudo o que eu clamava dentro de mim.
“Não vê que ela é preciosa demais?”

Eu não percebia. Não conseguia entender.

“O que há com você?”, perguntei exasperada. “Cansou de mim? Não me ama mais?”

Mas era do esforço sobre-humano que você estava cansado.

Afinal, quem seria capaz de suportar um fardo tão pesado por toda uma vida?

“Eu não consigo”, finalmente você admitiu, com a voz arranhada. “Eu não consigo carregar sua felicidade”.

E agora, meu amor?

Acabou?

O pensamento era insuportável, inconcebível, inaceitável.

Mas, qual a alternativa? E a minha felicidade?

Eu tinha que pensar na minha felicidade!

Você suspirou, tentou se levantar e, rugindo de esforço, disse:

“Eu vou melhorar. Agora consigo!”

Mas, eu e você, ambos sabíamos, meu amor.

Por mais que queira, que braços humanos poderiam suportar tamanha carga?

Era impossível. Portanto, era o fim do caminho.

A não ser…

E doeu só de pensar nisso.

… A não ser que minha felicidade ficasse para trás.

Era certo? Era justo?

A não ser que eu descobrisse que existem coisas mais importantes na vida do que ela.

Seria possível? Existia isso? Será que conseguiria?

Eles disseram que eu deveria pensar em mim.
Que a minha felicidade era meu bem mais precioso.

Mas descobri que não é bem assim.

Existem bens mais preciosos. Existem coisas pelas quais vale a pena lutar.

Isso me lembra de uma famosa proposta:
– Deixe comigo sua carga que eu lhe dou um peso mais leve, fácil de carregar.

Você não foi feito para carregar isso, meu amor. Nem eu. Então toda carga pesada eu deposito aos pés Daquele que suporta tudo. E ando sem olhar para trás.

Às vezes, ela me visita, a tal da felicidade. Achei que nem fosse mais vê-la, mas ela dá um jeito de me encontrar das formas mais inesperadas.

E agora não é mais pesada. É um refrigério num mundo cheio de cargas.

Olha o que os anos fizeram conosco, meu amor. Agora somos mais leves. Agora podemos dançar juntos pelo caminho, sem medo de perder alguma coisa. Então, vamos ter aventuras, vamos correr como loucos em direção ao alvo, deixar nossos braços livres para suportar algo que valha realmente a pena.

E no dia que sentir falta dela, vou sempre lembrar:

eu preferi amar.